Hirokazu Kore-eda se caracteriza por ser um dos cineastas de sua geração (56 anos) que maior preocupação tem demonstrado por representar a sociedade japonesa contemporânea de forma profunda e continuada. Esta recorrência faz com que seus filmes (a maioria lançada em Londrina pelo Cine Com-Tour/UEL nos últimos doze anos) sigam uma lógica narrativa muito similar, ainda que sempre com matizes bem diferenciados que fazem que cada um deles seja um exercício de beleza reflexiva única e delicadeza formal cativante.

'Assunto de Família': concorrendo ao Oscar de melhor filme estrangeiro, produção lança um olhar humanista sobre a marginalidade e o amor
'Assunto de Família': concorrendo ao Oscar de melhor filme estrangeiro, produção lança um olhar humanista sobre a marginalidade e o amor | Foto: Reprodução




Ganhadora da Palma de Ouro em Cannes 2018 e concorrendo ao Oscar 2019 de melhor filme de idioma estrangeiro, o novo Kore-eda , "Assunto de Família" (a partir de desta quinta-feira, 24, estreando na cidade, em seu espaço habitual) é uma espécie de compêndio e culminação de uma trajetória luminosa. Um olhar questionador e ao mesmo tempo profundamente humanista sobre a família, a marginalidade e o amor, um olhar que vai mais além dos laços de sangue no contexto áspero e agressivo de uma sociedade dominada pelo preconceito, o cinismo e a hipocrisia. Este drama doméstico vem da permanente vontade de um diretor de retratar conflitos e dificuldades associados com a classe operária japonesa, e o alentador consolo que a família pode oferecer à precariedade do trabalho e à penúria doméstica.

Neste "Assunto de Família", o realizador volta ao tema da educação e das famílias substitutas, a partir da perspectiva das crianças. O filme analisa como os conflitos e situações lesivas para os menores são promovidos por uma carência educacional paterna que, embora bem intencionada, não deixa de estimular a falta de responsabilidade e respeito nos filhos.

Em um espaço minúsculo localizado numa zona periférica nos arredores de Tóquio coexistem três gerações (da avó ao neto pré-adolescente) de uma família disfuncional, quase marginal, mas ao mesmo tempo cativante e amável. Pai e filho são especialistas em pequenos furtos em supermercados. E, quando encontram uma menina vitimada pela violência em sua própria casa, eles a adotam - sequestram? - sem avisar ninguém.

Por este ponto de partida qualquer um poderia intuir (com razão) que se trata de uma denúncia estarrecedora envolvendo crianças exploradas e forçadas ao exercício do furto. Mas o maestro é Kore-eda, e o que temos é o olhar compassivo que não julga (não se exalta e nem se afronta) seus personagens, aliás, suas criaturas.

O diretor continua apostando forte em uma emotividade discreta e uma austeridade formal, afastando assim qualquer noção de espetaculosidade. Aqui os significados emergem de maneira transparente, integrados a uma escritura de corte clássico. É excêntrico, este núcleo familiar de Kore-eda. O trabalho dos pais apenas garante o sustento familiar, completado graças à pensão da "avó", ao trabalho da filha maior como dançarina em clube de encontros eróticos e graças aos pequenos furtos ordinários.

O roteiro, também de Kore-eda, não oculta os aspectos mais graves deste retrato da família Shibata: a provação econômica, o mais que duvidoso emprego das crianças para os furtos, o inerente estado de alienação do trabalho sexual da filha maior. É conveniente reforçar o que já foi dito acima: Kore-eda observa (mas não julga) seus seres humanos com inegável carinho, abraçando este dia a dia penoso como se fosse exemplo heróico de sobrevivência. Material e emocional.

Ao espectador são postas algumas questões que podem ser retiradas desse contexto cinematográfico específico e colocadas para reflexão permanente. O que dá origem e forma a um laço de parentesco? A consanguinidade é fator determinante? Ou quem sabe o fator afetivo deva prevalecer? Perguntas complexas que o trabalho de Kore-eda aborda com bravura e humildade, mas provocando a consciência e a emoção do espectador sem resvalar para o sentimentalismo. Um exercício audacioso de dramaturgia que revela o olhar sem preconceitos. Um cinema que sabe camuflar a urgência de sua denúncia social sob uma delicada abordagem de uma série de odisseias cotidianas. Uma questão de pura humanidade.

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