Na minha infância, a garotada da rua tinha medo de Dona Chica. Francisca Dolores De La Reina, espanhola miúda, plantava ervas no quintal e o mistério que pesava sobre sua pessoa era o fato de ter costurado a própria mortalha, em tecido roxo, fino e engalanado, o que lhe rendeu a fama de bruxa.
Entre as suas ervas, a nossa preferida era a salsa que roubávamos certos de praticar um ato ilícito só para dar sabor às nossas comidinhas.
Quando Dona Chica via aquele bando de crianças refestelando-se no canteiro de salsas, saía da casa de madeira praguejando na sua língua nativa. E nunca soubemos direito o que falava, mesmo porque, com a pressa de sair do quintal grande e sombrio, não havia tempo para traduções.
Se estávamos por ali no fim da tarde, víamos às vezes a velha pegar sua caixinha de costura, colocar com dificuldade a linha na agulha e imaginávamos sempre que se dedicava à tarefa macabra de costurar, ponto por ponto, a mortalha que guardava em gaveta perfumada com alecrim. Não conseguíamos supor, que Dona Chica pregava botões, fazia a barra da saia ou costurava meias como qualquer dona-de-casa. Era a mortalha a peça que mais nos impressionava e, de vez quando, alguém sonhava com ela vestida de roxo, da cabeça aos pés, caminhando solitária para a morte e praguejando em espanhol como convinha a uma bruxa nascida em Madri.
Dona Chica era exímia lavadeira, na verdade as mesmas mãos que víamos costurando com dificuldade, lavava e passava com perfeição a roupa fina da cidade. Rendas, babados, pregas, nada era mistério para aquela senhora de mãos de fada quando o assunto era água, sabão e roupa quarando ao sol. Seu varal pendia enfeitado com as roupas brancas, tão brancas que a explicação para aquela alvura só podia vir de alguma poção trazida da Espanha. E a imaginação infantil apostava em sabões mágicos, águas temperadas, ajuda de duendes e outros seres que certamente rodeavam a velha que trabalhava e trabalhava, para sustentar os netos.
Outro indício de que a velha Chica era mesmo uma bruxa vinha da semelhança física com a filha única, uma mulher morena e magra que ostentava uma verruga daquelas no nariz. Como se sabe, bruxice é uma questão de hereditariedade, há famílias inteiras impregnadas de mistério e traídas por algum olhar enviezado, dedos compridos, pintas e verrugas que crescem em lugares estratégicos.
Sempre vivendo sob suspeita, um dia Dona Chica morreu. E como naquele tempo os velórios eram feitos em casa, a noite em que o corpo foi guardado transformou-se numa noite de terror para a molecada que não queria sair para a rua, limitando-se a sentir à distância o cheiro das velas, imaginando a exímia lavadeira vestida com a mortalha roxa, peça que lhe valeu a fama que carregou até o fim. Com muito custo, nossas mães empenharam-se em provar aos filhos que a morte era coisa natural e, quem quisesse, poderia ir, sem nenhum risco, ao velório de Dona Chica. Depois de pensar, decidir, recuar pelo menos dez vezes, criei coragem para espiar a velha. Afinal, a curiosidade de ver a mortalha venceu o medo. Transpirando muito, com a pressão baixa que sempre caracterizou os momentos de pânico, entrei pela primeira e última vez, aos 7 anos, na casa de Dona Francisca Dolores De La Reina. Para minha surpresa, a velhinha exibia um meio sorriso e em vez da mortalha, roxa e engalanada, ia para o outro mundo vestida de branco. A saia e a blusa simples e alvas, lavadas decerto com a ajuda dos duendes, iluminavam tudo e Dona Chica ostentava a serenidade dos puros de coração. Num canto da sala, a filha única chorava e não pude deixar de reparar que extirpara a verruga do nariz, graças à mágica de alguma cirurgia plástica que só deixou uma pequena cicatriz, ainda avermelhada, na narina direita. Tinha acabado o mistério, sem mortalha e sem verruga não há bruxa que resista. Mas de vez em quando, lembro-me de Dona Chica proferindo na língua nativa o clássico ditado: ‘‘No creo en las brujas, pero que las hay, las hay’’. E fico perguntando em que gaveta perfumada, afinal, a velha escondeu para sempre a mortalha.