Uma fábula pelo avesso
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segunda-feira, 15 de maio de 2006
Marcelo Pen<br> Folhapress 
O episódio da Expulsão dos Vendilhões no Templo é narrado nos evangelhos de Mateus, de Marcos e de Lucas, com ligeiras variações. Jesus entra no Templo de Jerusalém e, furioso com a venda de pombos sacrificais e com o câmbio de moedas, põe-se a lançar ao chão a parafernália dos vendedores, expelindo-os dali. Depois, censura-os ou ensina-os dependendo da versão: Está escrito: a minha casa é casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões. Algumas ilustrações mostram Jesus vergastando os comerciantes com um chicote.
O escritor gaúcho Moacyr Scliar inverteu a perspectiva da fábula, imaginando-a do ponto de vista de um dos vendilhões. O sujeito, um campônio arruinado, segue para Jerusalém em busca de condições de vida melhores para a família e passa a comercializar no Templo.
O vendilhão é um camarada rude, que, por não saber ler, mal distingue as moedas falsas das verdadeiras. Sonha com um futuro melhor para os dois filhos, mas, autoritário, desentende-se com eles. Mas não é má pessoa e escapa por pouco de ser executado a mando de um dos sacerdotes (os verdadeiros vilões).
Por isso, podemos entender sua raiva e frustração, e, sobretudo, seu pasmo, quando sua mesa é derrubada e ele é açoitado por um homem que nunca vira antes, mas que muitos ali chamam de Mestre. Seu erro foi estar no lugar errado na hora errada. Não entende por que não foi compreendido por aquele que tudo deveria compreender.
O romance de Scliar se passa em dois outros tempos. Em 1635, um jovem padre enfrenta dificuldades ao catequizar uma redução jesuítica no sul do Brasil. E em 1996, na cidade formada a partir da redução, um grupo de amigos relembra o final trágico de uma peça montada no colégio, sobre o tema dos vendilhões do templo.
O tempo da narrativa não evolui num curso sintagmático ordinário, com umas coisas seguindo outras. Seu tempo é antes o do paradigma, em que os símbolos e as ações refletem-se uns nos outros, duplicando-se e modificando-se dentro do quadro de leis superiores e implacáveis.
No interior de cada bloco paradigmático, o papel de vendilhão e de Jesus é vivido, simbolicamente, por diferentes atores narrativos. Em meio aos naturais deslocamentos de sentido, a fábula de Scliar reitera um ponto principal: a grande tragédia humana é a da incompreensão.
O ser humano sofre por não conseguir compreender o outro, suposto herói ou vilão; sofre com a falta de compreensão que o outro tem dele e, principalmente, sofre por não conseguir as respostas que o livrariam da ignorância. O plano maior da existência, como o olho duro, inexpressivo do pombo, mira-nos sem que nos permita divisar seus desígnios.
Serviço:
- Os Vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar. Editora: Companhia das Letras
R$ 43,00 (304 págs.)


