O DVD está reabilitando velhos clássicos e trazendo alguns novos. Filmes que não estavam disponíveis em VHS chegam em nova versão digital remasterizados e repletos de informações adicionais. É o caso de ''Meu Adorável Vagabundo'' (Meet John Doe, EUA, 1941), o vigésimo oitavo longa-metragem do ítalo-americano Frank Capra.
O leitor pode estranhar o fato de esse filme, tão próximo ao antigo estilo de Hollywood, ter sido produzido em 41, ano em que Orson Welles já mudava as bases do cinema com ''Cidadão Kane''. Mas Capra era assim, ele pertencia a outro mundo, em que o otimismo sempre reinava perante a mais penosa realidade.
Sua fase áurea vai de 34 a 46. Breves doze anos em que Capra realizou as mais esperançosas visões sobre o destino, incluindo ''Aconteceu Naquela Noite'', ''O Galante Mr. Deeds'', ''Do Mundo Nada se Leva'', ''A Mulher Faz o Homem'', ''Este Mundo É Um Hospício'', ''A Felicidade Não Se Compra'' e ''Meu Adorável Vagabundo''.
Se você quiser conhecer o estilo desse diretor se preocupe com esses filmes. Eles trazem a narrativa clássica, bem-humorada, com leves pitadas de humor negro, e, às vezes, até politicamente incorreto características que renderam três Oscars a Capra, em 34, 36 e 38.
Em 41, Capra já era senhor de Hollywood, tendo ocupado a mesa de presidente da Academia de Ciência e Artes de Los Angeles de 35 a 39. Há muitos anos na Columbia, o diretor resolveu criar uma produtora independente, em sociedade com seu velho e mais constante roteirista, Robert Riskin. Capra ainda teve a sorte de contar com o apoio de Jack Warner, o chefão da Warner Bros., que se encarregou da distribuição de ''Meu Adorável Vagabundo''.
Resolvidas as ''questões de mercado'', o diretor se voltou para história. No início dos anos 40, muitos jornais se rendiam ao estilo sensacionalista para competir com os yellow papers de William Randholf Hearst. Ao ser demitida, a jornalista Ann Mitchell (Barbara Stanwyck) cria uma carta que teria sido escrita por um tal de John Doe. Era uma confissão desesperada, que previa o suicídio. Os leitores se emocionam com a carta enviada ao jornal e oferecem empregos para John Doe. Sentindo a repercussão da carta, o dono do jornal recontrata Mitchell e escolhe um jovem desempregado para interpretar John Doe. Eis que surge Long John Willoughby (Gary Cooper), um ex-jogador de beisebol praticamente liquidado após a depressão.
Em poucos dias, John Doe vira uma estrela, com programa de rádio e coluna diária no jornal intitulada ''Eu Protesto''. O ex-vagabundo torna-se um símbolo americano de liberdade de expressão, de generosidade, perseverança. Clubes John Doe se formam em todo o país e logo o dono do jornal percebe o potencial político que o personagem John Doe adquiriu.
A vida do vagabundo passa a ser contada pela imprensa em seus mínimos detalhes, lembrando o fenômeno midiático que assolou as TVs ultimamente, os famosos big brothers, que no Brasil adquiriram facetas adaptadas como ''No Limite'' e ''Casa dos Artistas''. Ao perceber que não era o que estava sendo mostrado, John Doe decide revelar ao público toda a farsa criada. Mas só haveria um jeito de alguém acreditar em seu discurso se ele realmente cometesse o suicídio...
Considerado por alguns críticos ''piegas'' demais, ou simplesmente defensor do american way of life, Capra tinha apenas um defeito, se o leitor quiser considerar assim. Ele sempre impunha um final feliz a seus filmes. Talvez não fosse um defeito; apenas uma maneira de enxergar a vida. Ele acreditava nas possibilidades que todos têm de alcançar os seus sonhos, e sempre manteve forte convicção na honestidade dos homens. Sua visão foi sempre em tom de fábula, como uma lição moral que mostra ao público tudo que ele poderia atingir se acreditasse...
Capra pode não ter sido um grande diretor, mestre da técnica e da linguagem, mas enviou, como nenhum outro, mensagens que adoramos receber. E mesmo que hoje não acreditemos naquela fábula, passamos alguns minutos mergulhados na fantasia sintetizada na crença de que ''tudo pode acontecer''. Eis por que sempre (re)ver Capra e ''Meu Adorável Vagabundo''.

mockup