Uma fábula de Saramago
Agora que José Saramago ganhou o Nobel, qualquer coisa que ele escrever ou disser ganhará foros de preciosidade. É essa lógica da glória que justifica o lançamento isolado, em formato de livro - com direito a aquarelas de Arthur Luiz Piza -, do mais recente conto do escritor, O Conto da Ilha Desconhecida.
É um texto curto, que em letras e espaçamentos normais de livro daria umas 20 páginas, mas que na caprichada edição da Companhia das Letras rende 62. A história que conta é uma fábula singela: em tempo e local não determinados, um homem vai à casa do rei e pede-lhe um barco para ir à procura de uma ilha desconhecida. O rei, de início, nega o pedido, alegando que já não existem ilhas desconhecidas.
Depois, convencido pela argumentação do homem, dá-lhe uma caravela. Sozinho e sem saber navegar, o homem sai em busca de marujos para sua tripulação, mas só consegue atrair a mulher que trabalhava na limpeza da casa do rei. Não cabe aqui adiantar o que se passa com os dois marinheiros de primeira viagem e sua caravela. Basta dizer que se trata de uma metáfora um tanto óbvia das utopias e de seu escasso poder de convencimento dos homens de hoje. Saramago já mostrou em outras ocasiões que seu modo de fabular é brutalmente direto: para falar do divórcio entre os países ibéricos e a Europa unificada, fez a península se descolar do continente (A Jangada de Pedra). Para tratar dos descaminhos do mundo contemporâneo, cegou toda a humanidade (Ensaio sobre a Cegueira). Nos dois casos citados, sobretudo no segundo, há um certo equilíbrio entre o impulso metafórico e a lógica interna da ficção, de modo a envolver emocionalmente o leitor em sua especulação.
Em O Conto da Ilha Desconhecida, a balança pende para a intenção alegórica, em prejuízo da vivacidade e do poder de comoção que o relato pudesse apresentar. Mas o conto pelo menos tem uma virada final que lhe confere alguma leveza e encanto. Mais que encerrar seu texto com uma nota de esperança, o que Saramago faz é conduzir seu tema (a viagem, a descoberta, a utopia) ao indivíduo. Cada vez mais desconfiado das massas, esse velho comunista parece nos dizer que a transformação só é possível se começar no coração do homem.France PresseJosé Saramago: estilo brutalmente direto mesmo quando a estrutura é de fábulaJosé Geraldo Couto
Agência Folha





