Todo homem, mais cedo ou mais tarde, precisa acertar as contas com o passado. Precisa agarrá-lo pelo pescoço e olhá-lo nos olhos como nunca olhou. Fitá-lo em busca da íris da verdade oculta pelas dobras da memória. E essa verdade pode conferir uma nova compreensão do mundo, um entendimento onde o sofrimento é componente insolúvel.
  O narrador de ‘‘Conversa na Sicília’’, romance do escritor italiano Elio Vittorini (1908 - 1966), agarra o passado pelo pescoço e o que vê é muito mais que uma nova compreensão do mundo – é a mitologia existencial de um presente irrevogável. Sua visão atinge um estado de percepção que oferece à pobreza uma aura de fábula, uma história de ofensa ao mundo e aos homens.
  ‘‘Conversa na Sicília’’, que está sendo lançado pela Cosac & Naify Edições, é uma das obras mais cultuadas de Elio Vittorini, um dos expoente do neo-realismo da literatura italiana. Publicado originalmente em 1941, a edição foi idealizada com dezenas de fotografias de Luigi Crocenzi e assumiu a forma de um romance ilustrado da região da Sicília.
  Antifascista e comunista militante, Vittorini teve importante papel na vida cultural italiana do pós-guerra. Além de dirigir várias revistas literárias – entre elas a ‘‘Il Menabó’’, ao lado de Italo Calvino – trabalhou como tradutor de dezenas de autores de língua inglesa como Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, T. S. Eliot, D. H. Lawrence, William Faulkner, W. H. Auden e John Steinbeck.
  ‘‘Conversa na Sicília’’ narra a história de Silvestro, um homem e sua jornada de volta ao lugar em que nasceu, após 15 anos de ausência, para visitar a mãe. Sua viagem é movida por um completo vazio, por uma apatia capaz de transformar o mundo num desprezível grão de poeira. Lentamente a viagem torna-se um acerto de contas com sua infância e a consciência da miséria de seus conterrâneos, um mundo do qual ele isolou-se.
  Silvestro encontra a mãe parada no tempo, vivendo sozinha e arrancando farpas do passado. O encontro dos dois aflora discussões que só o tempo e a distância poderiam fomentar, bem como atormentar. O deslocamento dos papéis de pai, marido e filho é levado pelo furacão de conflitos nunca resolvidos. A infidelidade de seu pai, e da própria mãe, coloca lenha num estado onde a sexualidade passa a ser um alimento como pão. O fantasma da guerra também é tratado como pedra no sapato.
  ‘‘Conversa na Sicília’’ é o relato de um homem em seu processo de entender a existência, suas perspectivas interior. Nesse processo, acaba percebendo que suas reflexões passam pelo contato que mantém com o mundo exterior. Cada pessoa com quem conversa, cada imagem que vê, é parte importante de seu próprio entendimento. E assim, começa a encarar o coletivo como uma junção de individualidades perdidas na escuridão.
  A magia da pequena realidade, aquela do cotidiano imediato, é tratada por Elio Vittorini de maneira mítica. E essa magia sempre estenderá as mãos em direção ao sofrimento. Associado a isso, o escritor defende a tese de que é o sofrimento que faz o homem pertencer ao gênero humano. O miserável e o doente estariam, pela condição da dor, num patamar acima de valorização, seriam os homens providos de sentido, providos de humanidade. Os ricos e saudáveis seriam uma espécie de semi-homens que desconhece a verdadeira condição do gênero humano. Uma tese que pode ser resumida na seguinte frase: ‘‘Mate um homem e ele será mais homem’’.

''Depois, enquanto esperava, vi subir do vale um papagaio, e o segui com os olhos enquanto passava sobre mim, no alto da luz, e perguntei-me por que, depois de tudo, o mundo não era sempre, como aos sete anos, mil e uma noites. Ouvia as sinetas das cabras e as vozes pela escadaria de telhados e pelo vale, e por muitas vezes perguntei-me sobre isso enquanto olhava o papagaio naquele céu. É chamado de dragão voador na Sicília, e de qualquer modo confere um toque chinês ou persa ao céu siciliano, safira, opala e geometria, e não pude deixar de me perguntar, vendo-o, por que razão, na verdade, a crença dos sete anos não dura toda a vida do homem.
Talvez fosse perigosa? Qualquer um, aos sete anos, vê milagres em todas as coisas, e a partir da nudez dela, da mulher, tem a certeza dessas coisas, como suponho que ela, nossa costela, tenha de nós. A morte existe, mas não tira nada a certeza; nunca, então, traz ofensa ao mundo de mil e uma noites do homem. Um menino não pede mais do que papel e vento, só tem necessidade de empinar um papagaio. Vai e empina, e é o grito que se levanta dele, e o menino leva-o pelo ares com fio longo que não se vê, e assim fica consumada sua fé, celebrada sua certeza. Mas, depois, o que faz da certeza? Depois conhece as ofensas feitas ao mundo e a profanação da vida terrestre contra o gênero humano contra o mundo. Que faria agora se para sempre tivesse certeza?''
(Fragmento de ''Conversa na Sicília'', de Elio Vittorini)

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