Uma fábula da miséria
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de outubro de 2002
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 
Todo homem, mais cedo ou mais tarde, precisa acertar as contas com o passado. Precisa agarrá-lo pelo pescoço e olhá-lo nos olhos como nunca olhou. Fitá-lo em busca da íris da verdade oculta pelas dobras da memória. E essa verdade pode conferir uma nova compreensão do mundo, um entendimento onde o sofrimento é componente insolúvel.
O narrador de Conversa na Sicília, romance do escritor italiano Elio Vittorini (1908 - 1966), agarra o passado pelo pescoço e o que vê é muito mais que uma nova compreensão do mundo é a mitologia existencial de um presente irrevogável. Sua visão atinge um estado de percepção que oferece à pobreza uma aura de fábula, uma história de ofensa ao mundo e aos homens.
Conversa na Sicília, que está sendo lançado pela Cosac & Naify Edições, é uma das obras mais cultuadas de Elio Vittorini, um dos expoente do neo-realismo da literatura italiana. Publicado originalmente em 1941, a edição foi idealizada com dezenas de fotografias de Luigi Crocenzi e assumiu a forma de um romance ilustrado da região da Sicília.
Antifascista e comunista militante, Vittorini teve importante papel na vida cultural italiana do pós-guerra. Além de dirigir várias revistas literárias entre elas a Il Menabó, ao lado de Italo Calvino trabalhou como tradutor de dezenas de autores de língua inglesa como Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, T. S. Eliot, D. H. Lawrence, William Faulkner, W. H. Auden e John Steinbeck.
Conversa na Sicília narra a história de Silvestro, um homem e sua jornada de volta ao lugar em que nasceu, após 15 anos de ausência, para visitar a mãe. Sua viagem é movida por um completo vazio, por uma apatia capaz de transformar o mundo num desprezível grão de poeira. Lentamente a viagem torna-se um acerto de contas com sua infância e a consciência da miséria de seus conterrâneos, um mundo do qual ele isolou-se.
Silvestro encontra a mãe parada no tempo, vivendo sozinha e arrancando farpas do passado. O encontro dos dois aflora discussões que só o tempo e a distância poderiam fomentar, bem como atormentar. O deslocamento dos papéis de pai, marido e filho é levado pelo furacão de conflitos nunca resolvidos. A infidelidade de seu pai, e da própria mãe, coloca lenha num estado onde a sexualidade passa a ser um alimento como pão. O fantasma da guerra também é tratado como pedra no sapato.
Conversa na Sicília é o relato de um homem em seu processo de entender a existência, suas perspectivas interior. Nesse processo, acaba percebendo que suas reflexões passam pelo contato que mantém com o mundo exterior. Cada pessoa com quem conversa, cada imagem que vê, é parte importante de seu próprio entendimento. E assim, começa a encarar o coletivo como uma junção de individualidades perdidas na escuridão.
A magia da pequena realidade, aquela do cotidiano imediato, é tratada por Elio Vittorini de maneira mítica. E essa magia sempre estenderá as mãos em direção ao sofrimento. Associado a isso, o escritor defende a tese de que é o sofrimento que faz o homem pertencer ao gênero humano. O miserável e o doente estariam, pela condição da dor, num patamar acima de valorização, seriam os homens providos de sentido, providos de humanidade. Os ricos e saudáveis seriam uma espécie de semi-homens que desconhece a verdadeira condição do gênero humano. Uma tese que pode ser resumida na seguinte frase: Mate um homem e ele será mais homem.
''Depois, enquanto esperava, vi subir do vale um papagaio, e o segui com os olhos enquanto passava sobre mim, no alto da luz, e perguntei-me por que, depois de tudo, o mundo não era sempre, como aos sete anos, mil e uma noites. Ouvia as sinetas das cabras e as vozes pela escadaria de telhados e pelo vale, e por muitas vezes perguntei-me sobre isso enquanto olhava o papagaio naquele céu. É chamado de dragão voador na Sicília, e de qualquer modo confere um toque chinês ou persa ao céu siciliano, safira, opala e geometria, e não pude deixar de me perguntar, vendo-o, por que razão, na verdade, a crença dos sete anos não dura toda a vida do homem.
Talvez fosse perigosa? Qualquer um, aos sete anos, vê milagres em todas as coisas, e a partir da nudez dela, da mulher, tem a certeza dessas coisas, como suponho que ela, nossa costela, tenha de nós. A morte existe, mas não tira nada a certeza; nunca, então, traz ofensa ao mundo de mil e uma noites do homem. Um menino não pede mais do que papel e vento, só tem necessidade de empinar um papagaio. Vai e empina, e é o grito que se levanta dele, e o menino leva-o pelo ares com fio longo que não se vê, e assim fica consumada sua fé, celebrada sua certeza. Mas, depois, o que faz da certeza? Depois conhece as ofensas feitas ao mundo e a profanação da vida terrestre contra o gênero humano contra o mundo. Que faria agora se para sempre tivesse certeza?''
(Fragmento de ''Conversa na Sicília'', de Elio Vittorini)


