Já está nas lojas o novo disco do cantor, compositor, violonista, acordeonista e ministro da Cultura brasileiro Gilberto Gil. ''Banda Larga Cordel'' (lançamento Warner Music Brasil), como o nome anuncia, sugere uma tentativa de aproximação temática entre o universo da tecnologia de informação de ponta e a cultura tradicional brasileira. Uma exploração poética das possibilidades do mundo high tech - em choque contínuo com a toada low tech da exclusão cultural e social.
Muitos têm interpretado ''Banda Larga Cordel'' como mais um exemplar da fascinação de Gil pelo universo tecnológico, coisa que vem desde a Tropicália, quando ele compôs ''Cérebro Eletrônico'' e ''Futurível'' (1969), e que prossegue ao longo da carreira, com exemplares como ''Cibernética'' (1974), ''Parabolicamará'' (1991) e ''Quanta'' (1997).
Ouvindo-se atentamente o álbum, vê-se que não é tão verdade nesse caso. Gil, na realidade, analisa fundamentalmente o impacto da tecnologia nas formas de produção popular, no comportamento do povo, na ambivalência moral que surge com a novidade eletrônica. A tecnologia está aí ''para o bem e para o mal'', foi o que ele disse.
A canção que abre o disco é sintomática dessa revisão: ''Despedida de Solteira'' foi construída como se fosse uma daquelas parcerias antigas de Gil com Dominguinhos, e seu tema explora a reação do tradicional macho nordestino face à liberação sexual (que não se funda mais em uma antiga dualidade). ''E assim nossa prosa prosseguiria/ O assunto era instigante, o horizonte promissor/ Excitante para um cabra tão galante/ Intrigante para uma cabrita em flor'', diz a letra. A canção termina com risadas sarcásticas das meninas do coro feminino.
E assim o tema das novas moralidades prossegue na segunda canção do disco, ''Os Pais'', que fala da angústia de se criar um filho num mundo dominado pelo narcotráfico e por freaks de toda natureza. ''Maior liberdade ou maior repressão? Dilema maior dessa tal de civilização.'' É como se Gil dissesse: o pai é moderno, mas a preocupação é antiga e é a mesma.
Gil liquidifica todas suas referências musicais. A sonoridade nordestina, que ele já tinha fundido com o reggae no disco em homenagem a Bob Marley, agora serve para seu comentário sobre o paradoxo da tecnologia chegando ao sertão, o Ponto de Cultura chegando a Sousa, ao Vale dos Dinossauros da Paraíba. É esse o invólucro que embala o forró ''Não Grude Não'', no qual Gil parece examinar sua própria condição transitória de ministro da Cultura e suas caravanas pelo interior do Brasil. ''Numa cidade, sodade/ Noutra cidade, sodade/ Quem se escafede se antecede ao fim do fim.''
Mesmo quando ele parece sair dessa discussão, a discussão volta à baila. Por exemplo: na gravação de ''Formosa'', canção de Baden Powell e Vinicius de Moraes, o samba de Baden é trazido à tona como se fosse um exemplar de um tempo no qual se inventava a modernidade, os afro-sambas ecoando a origem e o futuro. Uma simples seção de metais turbina o samba.
É a mesma sensação que se tem adiante, com o ''Samba de Los Angeles''. O que pareceria uma rendição ao império midiático de Hollywood surge apenas como um sambinha emprenhado por uma moda de viola, uma coisa quase rural que se contrapõe à lembrança das freeways de Los Angeles.
É então que Gil vai à África, mas não pela via direta. Vai a ela por intermédio da world music cantada em francês, que foi a via pela qual a África passou a ter existência cultural no Velho Continente. ''La Renaissance Africaine'' é a segunda música de Gil com esse apelo (a primeira foi ''La Lune de Gorée'', parceria com Capinam, uma de suas mais belas canções). ''É a África e sua missão/ Chave para a verdadeira construção/ Do mundo civilizado.'' Por baixo de tudo, um baixo sintetizado e um beat programado.
Com ''Olho Mágico'', ele examina as perversões do voyeurismo exagerado. Já em ''Não Tenho Medo da Morte'', depara-se com o envelhecimento e o ato derradeiro. É a música mais bonita do álbum, envolta no som de um triângulo, mas também em uma orquestra de cordas (regida por Jaques Morelembaum).
Gil é prolixo em uma letra (''Banda Larga Cordel''), e faz um haicai de outra (''Amor de Carnaval''). É básico na formação rítmica de ''A Faca e o Queijo'' e ''Outros Viram'' (que toca só, ao violão) e escala uma big band em outra (''Gueixa no Tatame''). Além do ''Deus dos esnobes'', o sábio poeta tropicalista nos mostra que a chave essencial da modernidade ainda é pensar com clareza. E saber concluir com graça. Um belo disco.

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