O dramaturgo Nelson Rodrigues, em 1961, recebeu a encomenda de escrever um texto para a companhia de teatro da atriz Fernanda Montenegro. A peça recebeu o nome de “Beijo no Asfalto” e causou fortes protestos na plateia.

Nas palavras de Fernanda Montenegro, “Beijo no Asfalto” contou com sessões lotadas com violentos protestos a favor e contra: “Parte do público gritando: ‘Tarado!’, ‘Protesto em nome da família brasileira!’, ‘Merece cadeia!’, ‘Pornógrafo!’, e a outra parte mandando um ‘cala a boca’ aos berros. Na hora da gritaria, Nelson Rodrigues, diariamente presente na plateia, ficava quieto. Mas Jofre, seu filho, muito jovem, tinha que ser contido, pois, quando havia manifestação contrária, partia para cima do espectador, pronto para enfrentá-lo. Parávamos o espetáculo. Terminados os protestos, tudo acalmado, recomeçávamos.”

Esse episódio é narrado por Fernanda Montenegro em “Prólogo, Ato, Epílogo”, seu livro de memórias que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. A atriz começou a escrever a obra em 2016 com a colaboração de Marta Góes. O objetivo era publicá-la em comemoração aos seus 90 anos de idade que acontece no próximo dia 16 de outubro.

Neta de imigrantes italianos e portugueses, a atriz nasceu em 1929, com o nome de batismo Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Aos 17 anos de idade começou a trabalhar como locutora na Rádio MEC do Rio de Janeiro. Logo começou a fazer radioteatro e adotou o pseudônimo artístico de Fernanda Montenegro.

Em “Prólogo, Ato, Epílogo”, narra uma série de episódios que viveu ao longo de 70 anos de profissão com especial destaque à sua atuação no teatro ao lado do marido Fernando Torres.

Fernanda Montenegro: “Trago em mim e conservo gestos, entonações, sentimentos de atores que vi pela vida”
Fernanda Montenegro: “Trago em mim e conservo gestos, entonações, sentimentos de atores que vi pela vida” | Foto: Divulgação

Entre esses episódios está a ameaça de morte que recebeu em 1979, durante a ditadura militar, quando apresentava em São Paulo o espetáculo “É...” de Millôr Fernandes: “A janela do nosso quarto, no segundo andar, dava para uma pracinha arborizada. Certa noite, depois do espetáculo, nós subimos e nos preparamos para dormir. No momento em que deitei e apaguei a luz da mesinha e Fernando sentava na cama, um tiro estilhaçou a vidraça e a bala ficou cravada no teto de madeira do quarto. Ouvimos um carro arrancar em frente à casa. Por milagre não fomos atingidos. Nosso susto atravessou a noite. De manhã Fernando foi à delegacia dar conta do sucedido. Nada aconteceu. Começamos a receber telefonemas ameaçando me liquidar em cena. Era uma situação-limite. Contratamos quatro seguranças, armados, para tê-los na plateia totalmente iluminada a partir daquela noite. Tal situação extremada perdurou por um mês. As ameaças foram cessando.”

Tendo atuado em 58 peças, 35 filmes e 41 novelas, Fernanda possui uma relação devocional com a profissão. Segundo ela, os atores têm uma herança oficiosa, subliminar, de transferência na aprendizagem que liga atores e atrizes através do tempo: “Um ator que viu outro ator, que trabalhou com outro ator, que antecedeu a outro ator, que foi discípulo de mais outro e, antes, de muitos outros e outros. Trago em mim e conservo gestos, entonações, sentimentos de atores que vi pela vida. Daqui a cinquenta, cem anos, alguém entrará em cena de posse de um gene no DNA de um ator contemporâneo. E essa herança sempre está ligada ao experimento. E ao que fala ao seu instinto.”

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Serviço:

“Prólogo, Ato, Epílogo”

Autora – Fernanda Montenegro

Colaboração – Marta Góes

Editora – Companhia das Letras

Páginas – 392

Quanto – R$ 49,90

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