Vivianne Pasmanter gosta de chegar aos bastidores de ‘‘Uga Uga’’ depois da maioria de suas colegas de elenco. É que, na pele da mecânica Maria João, a atriz de 28 anos se viu livre do ritual de produção da maioria das atrizes, que geralmente levam horas para se maquiar, ajeitar o penteado e acertar o figurino.
Vivianne cortou o cabelo na altura dos ombros e sua indumentária na novela de Carlos Lombardi se resume geralmente a macacão, camiseta e tênis. Por isso a atriz chega ao Projac apenas 20 minutos antes do diretor gritar ‘‘ação’’. ‘‘Estou provando a vantagem, não só dos homens, mas também dos atores em cima das atrizes’’, comemora a paulistana de luminosos olhos azuis e sorriso cativante.
Por outro lado, Vivianne precisou se acostumar com os reflexos de viver uma personagem que chama a atenção pelo jeito masculinizado. A atriz teve de cortar as unhas, que cultivava compridas e pintadas. Para piorar, não é raro chegar em casa após as gravações da novela com resquícios de graxa pelo corpo. Mas o sacrifício parece pequeno quando Vivianne lembra da vaidosa e louríssima Beth de ‘‘Andando nas Nuvens’’, seu trabalho anterior. ‘‘Levava uma hora para ficar pronta e outra para tirar o figurino. Era bem mais cansativo que agora’’, compara.
Mas Vivianne não sabe até quando sua personagem vai manter a aparência desleixada. Maria João vai dar uma virada na trama da novela após se reencontrar com o noivo Baldochi, vivido por Humberto Martins, que a deixou na hora de casar e desde então está desaparecido. ‘‘Estou curiosa para saber qual o rumo que a Maria João vai tomar. Este suspense me motiva a fazer a novela’’, afirma a atriz.
Uma das características que Vivianne não gostaria que a personagem deixasse para trás é a mania de ler romances baratos, na verdade, escritos pelo próprio Baldochi. Isto porque a atriz gosta de fazer as cenas em que Maria João se transporta para as histórias dos romances e imagina-se ao lado do noivo desaparecido nas mais variadas situações. ‘‘É uma maneira de variar tanto a interpretação quanto o visual da Maria João. Além das cenas serem bem divertidas’’, garante Vivianne.
A atriz acredita que o público poderia enjoar do visual descuidado de Maria João e do jeito rude. Por isso, Vivianne gosta da idéia de Carlos Lombardi de possibilitar à personagem aparecer com uma postura mais sensual quando sonha com o ex-noivo. ‘‘Pelo menos não preciso fazer aquela voz rouca da personagem’’, brinca, imitando o jeito de falar de Maria João.
A atriz também se diverte com os apliques que coloca nestas ocasiões. Na primeira vez, Vivianne apareceu fatalmente loura e depois com longos cabelos ruivos. A atriz acha que estes delírios de Maria João servem para provar que o jeito ‘‘masculinizado’’ da personagem é apenas uma carapaça. ‘‘Há mulheres que se fazem de duronas, mas que são verdadeiros vulcões prontos a explodir. A Maria João é assim, enrustida’’, compara Vivianne, que diz não ter qualquer semelhança com a personagem. ‘‘Sou sempre feminina e acho que nunca vou mudar’’, avalia a atriz.
Como está longe de ter os trejeitos de Maria João, a atriz teve que observar mais a maneira de agir dos homens. Desde que começou a se preparar para ‘‘Uga Uga’’, Vivianne adquiriu o hábito de espreitar os transeuntes enquanto está parada no sinal de trânsito, espiar a maneira dos homens comerem em restaurantes ou a postura quando encontram os amigos. ‘‘Estou procurando entender mais as atitudes masculinas para não cair em caricaturas. Busco uma interpretação sutil’’, afirma.
Vivianne garante que tentou não se influenciar por personagens semelhantes a Maria João, como a mecânica Ana Machadão, que Débora Bloch interpretou em ‘‘Cambalacho’’, novela de Silvio de Abreu, de 1986. Mas ela assume que buscou inspiração em Hillary Swank, que ganhou o Oscar de melhor atriz em ‘‘Meninos Não Choram’’, de Kimberly Peirce. ‘‘Ela faz um homem delicado e eu uma mulher embrutecida. Embora sejam situações contrárias, tento dar a mesma linha de interpretação’’, assume.
Apesar de viver uma mecânica em ‘‘Uga Uga’’, Vivianne Pasmanter afirma que nem pensou em fazer laboratório em oficinas. A atriz continua totalmente leiga em consertos de carros e jura que mal sabe trocar um pneu furado. Por isso, o diretor da novela Wolf Maya pediu que um mecânico profissional acompanhasse o primeiro mês de gravação de ‘‘Uga Uga’’ para tirar dúvidas da atriz antes das cenas. Entre elas, pegar corretamente nas ferramentas, falar os nomes certos de determinadas peças automotivas e a postura para realizar tarefas dentro da oficina. ‘‘Não preciso realmente aprender a profissão da personagem. Se for assim, como fará uma atriz para interpretar uma prostituta?’’, provoca.
Na verdade, a atriz está sentindo dificuldade com o texto de Carlos Lombardi. Nesta primeira experiência com o autor, Vivianne se assustou. É que Carlos Lombardi gosta de escrever frases longas e com o mínimo de verbos possíveis. Para a atriz, este estilo é bem mais difícil de se decorar do que de outros autores, como Manuel Carlos, com quem Vivianne trabalhou duas vezes, e que segue a linha coloquial em seu texto. Por isso, ela passa horas estudando as falas, já que não é adepta a ‘‘cacos’’ e tenta seguir literalmente o que o autor escreve.

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