A convite da Folha2, a dramaturga uruguaia Mariana Percovich foi conhecer um bairro popular de Londrina. Ela escolheu a Vila Casoni, onde ouviu histórias que podem até virar peças de teatro
Londrina costuma ganhar um ar diferente nos meses em que se realiza o Festival Internacional – Filo. Os espetáculos vão às ruas, aos teatros, a lugares inusitados. A população se encanta, se irrita, se identifica ou simplesmente observa. Os atores se apresentam e vão embora. Mas muitas vezes levam na bagagem uma curiosidade maior sobre o lugar em que estiveram, mas não conhecem na intimidade de suas praças e esquinas.
À convite da Folha2, a dramaturga, diretora e professora de teatro uruguaia Mariana Percovich, 36 anos, escolheu um bairro de Londrina para conhecer melhor: a Vila Casoni e suas imediações. Ela, que dirigiu o espetáculo ‘‘Ayax’’ – apresentado em maio – não imaginava o que teria pela frente.
No ano em conheceu Londrina, 1986, Mariana estranhou a cidade nova, cujas casas mais antigas não tinham mais do que 50 anos. ‘‘Montevidéu tem 200 anos e muitas casas são do século passado. Eu adoro cidades velhas. Viajo por vários países e sempre visito os lugares antigos’’, conta a uruguaia, que na época procurou livros para pesquisar a história londrinense. ‘‘Essas casas de madeira são o princípio da cidade. Se eu morasse aqui seria numa casinha dessas. Nunca em prédios modernos’’- comentou no trajeto.
Dentro do carro, Mariana apontava para as construções e queria saber se os moradores das casas de madeira são pessoas com menor poder aquisitivo. Ela mesma pôde descobrir. A primeira casa visitada, construída num terreno mais alto que os demais, chamou a atenção da moça por estar danificada e conservar uma certa originalidade.
Mariana foi recebida cordialmente pelo aposentado Paulo Ribeiro, 74 anos, que há 32 mora na Rua Icós, ainda na Vila Portuguesa. A moradia já pertenceu ao barbeiro José Virgílio Testa. A uruguaia contou ao morador qual seu interesse pelas casas antigas e, sem cerimônia, eles partiram para a conversa.
Seu Paulo disse gostar do lugar onde mora, por ser melhor no tempo do frio: ‘‘é mais quentinho!’’ ‘‘Também não temos condições de construir outra casa’’, comentou. As flores vermelhas no jardim chamaram a atenção de Mariana, que perguntou o nome da planta. ‘‘Não sei não, mas a senhora pode levar uma, passar numa floricultura e perguntar’’- sugeriu Seu Paulo, que rapidamente colheu flores para a uruguaia.
Antes de ir embora, ele fez questão de comentar que ao ouvir o espanhol falado pela moça lembrou-se do tempo em que era ajudante de cozinha em um restaurante de Ribeirão Preto. ‘‘Eu ouvia muita gente falando essa língua. Espanhóis, uruguaios, mexicanos...’’.
Mais uma volta de carro e Mariana se encantou por outra residência. ‘‘Olha esta, que coisa bonita! Toda em madeira e com uma coluna grega no jardim.’’ No portão, fomos atendidos pelo dono da casa, Orlando Mesquita, 60 anos. Repetimos a história e o convite para entrar veio rápido. Na sala, ele apresentou a mãe, dona Emília Mesquita, 82 anos. Apesar de ouvir pouco, ela presta atenção na conversa e vai indicando os cômodos.
A primeira coisa que Mariana Percovich notou foi o relógio antigo pendurado na parede da sala. ‘‘É original, antigo? Está com vocês há muito tempo?’’, indagou. Diante da resposta afirmativa, ela se deteve observando o relógio, que já não marca a hora certa.
Dona Emília leva Mariana até a cozinha, depois ao quintal e pede desculpas pela simplicidade. Nos fundos, mãe e filho contam que moram em Londrina há 54 anos e que muita coisa mudou nas três décadas em que residem na casa, que foi pintada e reformada para ‘‘ficar mais bonita’’. ‘‘Meu pai e meu irmão morreram e hoje moramos só eu e minha mãe aqui’’ - contou Orlando.
Na saída, Mariana continuou a conversar com dona Emília. Ambas chegaram ao jardim, olharam para a coluna de gesso e conversaram por minutos. Ao se despedirem, a uruguaia entrou no carro pensativa. ‘‘Ela quase chorou ao me falar do filho morto. Ela está triste porque o perdeu há um ano, em acidente. Foi ele quem colocou a coluna no jardim e ela não tem coragem de retirá-la.’’
A terceira e última parada foi na Rua Caraíbas, Vila Casoni. O local escolhido é um dos bares mais antigos do bairro, o ‘‘Caraíbas – Pastelaria, Bebidas, Doces e Salgados’’. ‘‘Mas esse bar é muito bonito!’’, vibra Mariana, ao olhar atenciosamente para os detalhes da construção em madeira.
Construído em 1943, o bar foi comprado há oito anos pela paulista Norma de Lima, que veio de Campinas para passear na cidade e acabou ficando. Logo comprou o bar, que segundo ela costuma reunir o pessoal mais antigo da vila. ‘‘Eles vêm aqui bater papo e se encontrar. Tem gente que mora em outra cidade e quando volta a Londrina vem rever os amigos’’- explicou.
Fim do passeio. Mariana reflete sobre o que viu, ouviu e sentiu. ‘‘A preservação da memória é um coisa tão importante. Trabalho com a memória na dramaturgia; com histórias escondidas que ninguém quer comentar. Como a história dessa mulher, que não consegue retirar a coluna de gesso do jardim por causa do filho morto’’, compara.
A dramaturga lembra, então, do relógio pendurado na sala. ‘‘Você percebeu que já não marca mais as horas? O tempo está parado dentro daquela casa, para aquela família. Eles ficaram sozinhos, o filho e a mãe’’, analisa. Para ela, a realidade às vezes revela ‘‘fatos estranhos’’. ‘‘Daí saem as melhores histórias. Me identifico com isso’’, comenta.
Para esclarecer sua idéia, Mariana fala de um texto que escreveu, ‘‘Extraviada – Uma Tragédia Montevideana’’, baseada na história real da menina de 20 anos que em 1935 matou o pai em frente à casa e de toda a família. ‘‘Encontro nessas pessoas e lugares coisas que necessito escutar. A gente pode transformá-las e transmiti-las a pessoas que nunca irão a esses locais para ouvir histórias’’, analisa. ‘‘O público fica espantado quando a realidade se transforma em ficção. Escreveria uma história sobre essa mulher, que tem na coluna grega a memória do filho morto, com a qual se depara todos os dias. É uma memória individual. E no mundo globalizado isto está se perdendo.’’
Ela salienta que nunca narraria tais fatos de forma realista, ‘‘porque esta é a maior mentira no teatro’’. Na opinião da dramaturga, não se pode copiar a realidade, que é mais forte e não se compara a qualquer história contada.

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