UMA ESTRANGEIRA NA VILA
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
A convite da Folha2, a dramaturga uruguaia Mariana Percovich foi conhecer um bairro popular de Londrina. Ela escolheu a Vila Casoni, onde ouviu histórias que podem até virar peças de teatro
Londrina costuma ganhar um ar diferente nos meses em que se realiza o Festival Internacional Filo. Os espetáculos vão às ruas, aos teatros, a lugares inusitados. A população se encanta, se irrita, se identifica ou simplesmente observa. Os atores se apresentam e vão embora. Mas muitas vezes levam na bagagem uma curiosidade maior sobre o lugar em que estiveram, mas não conhecem na intimidade de suas praças e esquinas.
À convite da Folha2, a dramaturga, diretora e professora de teatro uruguaia Mariana Percovich, 36 anos, escolheu um bairro de Londrina para conhecer melhor: a Vila Casoni e suas imediações. Ela, que dirigiu o espetáculo Ayax apresentado em maio não imaginava o que teria pela frente.
No ano em conheceu Londrina, 1986, Mariana estranhou a cidade nova, cujas casas mais antigas não tinham mais do que 50 anos. Montevidéu tem 200 anos e muitas casas são do século passado. Eu adoro cidades velhas. Viajo por vários países e sempre visito os lugares antigos, conta a uruguaia, que na época procurou livros para pesquisar a história londrinense. Essas casas de madeira são o princípio da cidade. Se eu morasse aqui seria numa casinha dessas. Nunca em prédios modernos- comentou no trajeto.
Dentro do carro, Mariana apontava para as construções e queria saber se os moradores das casas de madeira são pessoas com menor poder aquisitivo. Ela mesma pôde descobrir. A primeira casa visitada, construída num terreno mais alto que os demais, chamou a atenção da moça por estar danificada e conservar uma certa originalidade.
Mariana foi recebida cordialmente pelo aposentado Paulo Ribeiro, 74 anos, que há 32 mora na Rua Icós, ainda na Vila Portuguesa. A moradia já pertenceu ao barbeiro José Virgílio Testa. A uruguaia contou ao morador qual seu interesse pelas casas antigas e, sem cerimônia, eles partiram para a conversa.
Seu Paulo disse gostar do lugar onde mora, por ser melhor no tempo do frio: é mais quentinho! Também não temos condições de construir outra casa, comentou. As flores vermelhas no jardim chamaram a atenção de Mariana, que perguntou o nome da planta. Não sei não, mas a senhora pode levar uma, passar numa floricultura e perguntar- sugeriu Seu Paulo, que rapidamente colheu flores para a uruguaia.
Antes de ir embora, ele fez questão de comentar que ao ouvir o espanhol falado pela moça lembrou-se do tempo em que era ajudante de cozinha em um restaurante de Ribeirão Preto. Eu ouvia muita gente falando essa língua. Espanhóis, uruguaios, mexicanos....
Mais uma volta de carro e Mariana se encantou por outra residência. Olha esta, que coisa bonita! Toda em madeira e com uma coluna grega no jardim. No portão, fomos atendidos pelo dono da casa, Orlando Mesquita, 60 anos. Repetimos a história e o convite para entrar veio rápido. Na sala, ele apresentou a mãe, dona Emília Mesquita, 82 anos. Apesar de ouvir pouco, ela presta atenção na conversa e vai indicando os cômodos.
A primeira coisa que Mariana Percovich notou foi o relógio antigo pendurado na parede da sala. É original, antigo? Está com vocês há muito tempo?, indagou. Diante da resposta afirmativa, ela se deteve observando o relógio, que já não marca a hora certa.
Dona Emília leva Mariana até a cozinha, depois ao quintal e pede desculpas pela simplicidade. Nos fundos, mãe e filho contam que moram em Londrina há 54 anos e que muita coisa mudou nas três décadas em que residem na casa, que foi pintada e reformada para ficar mais bonita. Meu pai e meu irmão morreram e hoje moramos só eu e minha mãe aqui - contou Orlando.
Na saída, Mariana continuou a conversar com dona Emília. Ambas chegaram ao jardim, olharam para a coluna de gesso e conversaram por minutos. Ao se despedirem, a uruguaia entrou no carro pensativa. Ela quase chorou ao me falar do filho morto. Ela está triste porque o perdeu há um ano, em acidente. Foi ele quem colocou a coluna no jardim e ela não tem coragem de retirá-la.
A terceira e última parada foi na Rua Caraíbas, Vila Casoni. O local escolhido é um dos bares mais antigos do bairro, o Caraíbas Pastelaria, Bebidas, Doces e Salgados. Mas esse bar é muito bonito!, vibra Mariana, ao olhar atenciosamente para os detalhes da construção em madeira.
Construído em 1943, o bar foi comprado há oito anos pela paulista Norma de Lima, que veio de Campinas para passear na cidade e acabou ficando. Logo comprou o bar, que segundo ela costuma reunir o pessoal mais antigo da vila. Eles vêm aqui bater papo e se encontrar. Tem gente que mora em outra cidade e quando volta a Londrina vem rever os amigos- explicou.
Fim do passeio. Mariana reflete sobre o que viu, ouviu e sentiu. A preservação da memória é um coisa tão importante. Trabalho com a memória na dramaturgia; com histórias escondidas que ninguém quer comentar. Como a história dessa mulher, que não consegue retirar a coluna de gesso do jardim por causa do filho morto, compara.
A dramaturga lembra, então, do relógio pendurado na sala. Você percebeu que já não marca mais as horas? O tempo está parado dentro daquela casa, para aquela família. Eles ficaram sozinhos, o filho e a mãe, analisa. Para ela, a realidade às vezes revela fatos estranhos. Daí saem as melhores histórias. Me identifico com isso, comenta.
Para esclarecer sua idéia, Mariana fala de um texto que escreveu, Extraviada Uma Tragédia Montevideana, baseada na história real da menina de 20 anos que em 1935 matou o pai em frente à casa e de toda a família. Encontro nessas pessoas e lugares coisas que necessito escutar. A gente pode transformá-las e transmiti-las a pessoas que nunca irão a esses locais para ouvir histórias, analisa. O público fica espantado quando a realidade se transforma em ficção. Escreveria uma história sobre essa mulher, que tem na coluna grega a memória do filho morto, com a qual se depara todos os dias. É uma memória individual. E no mundo globalizado isto está se perdendo.
Ela salienta que nunca narraria tais fatos de forma realista, porque esta é a maior mentira no teatro. Na opinião da dramaturga, não se pode copiar a realidade, que é mais forte e não se compara a qualquer história contada.


