Toda lista de ''melhores discos'' costuma acirrar divergências em rodas de amigos. Desta vez, as discussões serão duplamente acaloradas. A revista ''MTV'' deste mês traz uma relação dos 100 álbuns (supostamente) mais representativos da história da música popular brasileira.
Já a recente edição da revista ''Zero'' divulga uma discoteca básica com os 25 títulos (também supostamente) mais importantes do rock nacional das duas últimas décadas. A enquete da MTV contou com votos de artistas, críticos e alguns notáveis (gente como o publicitário Washington Olivetto, o apresentador de TV Zeca Camargo e o lojista Luís Calanca). A pesquisa da Zero consultou apenas músicos e críticos.
Na publicação da MTV, ''Tropicália ou Panis et Circensis'' aparece no topo como o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Na Zero, o eleito foi ''Nós Vamos Invadir Sua Praia'', da banda paulistana Ultraje a Rigor. As escolhas surpreendem, afinal ninguém ousaria negar a importância histórica de um e nem qualidade inegável do outro. Mas daí a considerá-los os ''melhores'' nas respectivas listas, vai deixar muita gente com vontade de escrever cartas indelicadas para as duas revistas.
O debate, enfim, está aberto. ''Tropicália'' saiu em 1968. O álbum refletia a efervescência libertária da época misturando vanguarda, jovem guarda, rock, bossa nova e bolero. O disco chegou às lojas como o manifesto do movimento tropicalista, então capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caetano coordenou o projeto coletivo e selecionou o repertório, que também trazia canções inéditas de Gil, Torquato Neto, Capinan e Tom Zé.
Os arranjos ficaram por conta do maestro Rogério Duprat, com produção de Manoel Barenbein. ''Um poeta desfolha a bandeira / E a manhã tropical se inicia'' dizem os primeiros versos de ''Geléia Geral'', com letra de Torquato, que desenhava um painel alegórico do país. ''Parque Industrial'', de Tom Zé, também esboçava um retrato do Brasil nas vozes de Gil, Caetano, Gal Costa, Mutantes e do próprio compositor.
O arranjo alternava citações do Hino Nacional Brasileiro com trechos do popular jingle do analgésico Melhoral. A irreverência e criatividade prosseguia em ''Panis et Circensis'', com participação dos Mutantes e cuja introdução reuniu músicos e técnicos no estúdio para simular o ambiente de um animado jantar em família com ruídos de pratos, copos e talheres.
Gal Costa canta ''Baby'', uma delicada obra-prima tropicalista com orquestração fundindo bossa nova e música pop. Caetano a compusera originalmente para Maria Bethânia, que até dera sugestões para a letra. Mas dias antes da gravação, ela desistiu do projeto para não ser vinculada ao movimento. Com 12 faixas, o álbum foi bastante comentado também por causa da pose histórica estampada em sua capa.
A sessão fotográfica, contudo, pouco teve de elaboração conceitual. Como um happening, os artistas iam sugerindo o que entrar na base do improviso. Como Nara Leão e Capinan não puderam comparecer à sessão, surgiu a idéia de segurar molduras com imagens dos dois ausentes. Já Rogério Duprat fez questão de trazer um prosaico penico que encontrara dias antes na casa de uma tia. Na foto, ele aparece segurando o objeto como se fosse uma xícara de chá.
Na esteira de ''Tropicália ou Panis et Circensis'', a lista da revista MTV destaca em segundo lugar o álbum ''Acabou Chorare'' (1972), dos Novos Baianos. O antológico ''Tábua de Esmeraldas'' (1974), de Jorge Ben, aparece em terceira colocação. A grande surpresa entre os 10 mais votados é ''Da Lama ao Caos'', álbum de estréia do grupo Nação Zumbi, lançado em 1994 e que ficou em sétimo posto.
Entre os primeiros dez eleitos entraram ainda ''Secos & Molhados''(1973) dos Secos & Molhados, ''Os Mutantes''(1968) dos Mutantes, ''Chega de Saudade'' (1959) de João Gilberto, ''Transa''(1972) de Caetano Veloso, ''Expresso 2222''(1972) de Gilberto Gil; e ''Elis & Tom''(1974) de Elis Regina e Tom Jobim. Os Paralamas aparecem na 11 colocação com o álbum ''Selvagem?'', de 1986, que também será motivo de muita controvérsia.
O título mais antigo da lista é ''Canções Praieiras'', de Dorival Caymmi, lançado em 1954 e que aparece em 33º lugar. O lançamento mais recente é ''Bloco do Eu Sozinho'', que a banda Los Hermanos lançou em 2001 e que aqui figura na 71 colocação. Esse disco desponta em quarto lugar na lista da Zero. A relação dos mais-mais do rock nacional dos anos 80 e 90, aliás, vai dar o que falar.
É comum, por exemplo, ouvir em conversas informais que ''Cabeça Dinossauro'' encabeçaria qualquer lista do gênero. Na pesquisa da Zero, o antológico álbum dos Titãs ficou em segundo lugar. Quem apostaria em ''Nós Vamos Invadir Sua Praia'', do Ultraje? O fato é que, na época, o disco consagrou a banda emplacando várias canções nas paradas.
''Inútil'', ''Ciúme'', ''Eu me Amo'', ''Rebelde Sem Causa'', ''Mim quer Tocar'', ''Marylou'' e a faixa-título tocaram exaustivamente nas rádios. A relação dos dez primeiros colocados na revista contempla ainda, além dos citados, ''Legião Urbana'' (Legião Urbana), ''Vivendo e Não Aprendendo'' (Ira!), ''Selvagem! (Paralamas), ''Afrociberdelia'' (Chico Science & Nação Zumbi), ''Dois'' (Legião Urbana), ''Da Lama ao Caos'' (Chico Science & Nação Zumbi) e ''Lado B Lado A'' (O Rappa).
A Zero traz ainda uma lista de 20 títulos batizada de ''Os Discos Injustiçados'', que destaca CDs de nomes como Racionais MC's, Sex Beatles, Gueto, Voluntários da Pátria e Gangrena Gasosa.

mockup