Uma escola de espinhos
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de maio de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Todo mundo vai à escola para aprender coisas boas. Coisas como aprender a escrever, fazer contas, entender como as plantas dão sementes, conhecer as cores do arco-íris, saber como os pássaros conseguem voar e muito mais.
Mas com Binho foi diferente. Ele não brigava com ninguém, não grudava chiclete debaixo da mesa, escovava os dentes todos os dias, não falava palavrão, tomava banho sem reclamar, não sujava o tapete com os pés de barro, enfim, era naturalmente um boa pessoa.
O problema era que sua família não via com bons olhos seu comportamento exemplar. Então seu pai resolveu enviá-lo para uma escola que iria colocar Binho nos eixos. Lá, aprenderia a arrotar em alto e bom som, aprenderia os palavrões mais cabeludos, falaria mentiras pelo menos cinco vez ao dia, não respeitaria nada e nem ninguém, não limparia mais as orelhas, não usaria nunca mais palavras como por favor, desculpa e obrigado e, acima de tudo, faria xixi fora da privada.
O grande drama de Binho era ter nascido numa família de lobos maus. Seu pai já tinha devorado três porquinhos. Seu tio já havia devorado uma vovozinha e uma menina de chapéu vermelho. Seu irmão mais novo já tinham jogado sal em 25 lesmas. Resumindo, uma família exemplar da arte da maldade.
Pela sua personalidade, Binho não teria futuro, não seria um autêntico lobo mau. Seria um lobinho bonzinho, uma verdadeira tragédia, uma ofensa para toda a família. Para reverter essas fatalidades, Binho foi enviado, contra sua vontade, para um colégio interno chamado Escola de Enganação Para Feras, especialista em desenvolver o mau-caratismo em seus alunos. O diretor do local era seu tio Lobão do Mal, o maior mestre em maldades de toda a floresta.
A história de Binho está em Lobinho na Escola da Enganação, que a Editora Companhia das Letrinhas acaba de lançar. De autoria do escritor inglês Ian Whybrow com ilustrações de Tony Ross, o livro apresenta a trajetória de Binho em seu aprendizado de maldades levado pelas mãos do pai e do tio. Dividido entre fazer aquilo que sente e o que é pressionado a fazer, o filhote de lobo vai descobrindo seu próprio caminho.
Toda a história é narrada através de pequenas cartas que Binho escreve aos pais, contando todos os acontecimentos, suas dúvidas, inseguranças e seu aprendizado. O lobinho sai de casa sozinho com destino à Escola de Enganação Para Feras levando na mochila um bom suprimento de tortas de camundongo preparadas pela mãe. Em sua jornada até à escola, precisa percorrer lugares nada acolhedores. Caminhando pela primeira vez com as próprias pernas, ele vai aprendendo a ver a vida com os próprios olhos, procurando entender as várias realidades que lhe são apresentadas.
É bom lembrar que Binho, apesar de todo seu esforço em aprender a cartilha do mal, percebe que a bondade é sua floresta natural. E, após essa experiência, aprende coisas muito melhores que pisar no pé de velhinhas, falar palavrões cabeludos, contar mentiras, pensar apenas em si mesmo, fazer xixi fora da privada e outras coisas mais. Percebe que não deseja ser como os lobos de sua família, todos maus. Quer, na verdade, ser um lobo bom e tem a coragem de dizer isso aos pais: Quando eu crescer quero ser eu mesmo, e não apenas um horrível lobão que não inspira confiança em ninguém.
Lobinho na Escola de Enganação, é o primeiro volume de uma série de três livros que narra a história de Binho. Um prato cheio para alguém compreender, de maneira divertida como é importante cada um ser aquilo que é. Como tudo na vida, dá um trabalhão, leva tempo e não é uma tarefa fácil. Mas, em todas das situações, a única coisa que podemos fazer na vida é ser aquilo que realmente somos. A sinceridade é a maior de todas as escolas.
Lobinho na Escola da Enganação - De Ian Whybrow, ilustrações de Tony Ross, Editora Companhia das Letrinhas, tradução de Carlos Sussekind, 128 páginas, R$ 18,00.


