Uma epopéia vermelha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de novembro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Era um fim de tarde quando Domingos Pellegrini abriu o portão. Número 160 da última rua do último bairro ao leste Londrina. Abriu o portão da chácara onde reside tentando conter o avanço dos cachorros. Na realidade cachorras, Maga e Morena, cuja principal diversão é sujar, com as patas cheias de terra, as calças dos visitantes. A mesma terra vermelha que pigmenta as páginas de seu novo livro, o romance Terra-Vermelha que chega esta semana às livrarias lançado pela Editora Moderna.
ReproduçãoRomance de Domingos Pellegrini é baseado na colonização do Norte do Paraná e, especialmente, de Londrina: cidade criada no meio da mata foi terra de gente ousada que aqui escreveu uma história feita de garra e contradiçõesA obra reconstitui, misturando fatos reais e ficção, a história da colonização no Norte do Paraná e a construção de Londrina. Narra a história do casal José e Tiana - personagens baseados nos avós do escritor - que deixam o interior de São Paulo para tentar a vida como colonos na clareira aberta no meio da selva pela Companhia de Terras Norte do Paraná. Colocam os pés no barro vermelho pouco antes da chegada da estrada de ferro, na década de 30. Inaugurando uma pensão, que depois se transformará em hotel, José e Tiana percorrem os principais fatos históricos da colonização. Trabalhando com personagens reais e imaginários, Domingos Pellegrini realiza em Terra-Vermelha a primeira narrativa literária que resgata a saga da região. Sua grande aspiração é colocar o Norte do Paraná no mapa da literatura brasileira.
Tendo como fundo um turbilhão de cigarras em sinfonia, o escritor se diz receoso quanto a repercussão do romance. Como é um livro grande, as possibilidades de erros também podem ser grandes - afirma sorrindo. Escrito num período de 10 meses, em 1993 através de uma bolsa do Fundação Vitae, a obra foi reescrita por duas vezes anos depois. Em sua avaliação, ele considera que poderia ter enxugado as 512 páginas do texto, mas ficou com dó de cortar alguns fatos históricos.
Em Terra-Vermelha, o personagem José, num leito de hospital, idoso próximo da morte, realiza uma retrospectiva de toda sua vida. Acontecimentos exemplares passam pela tela cinematográfica de seus pensamentos.
Fiel às características de sua linguagem limpa, uma literatura que utiliza a oralidade como instrumento básico, Pellegrini é hoje um escritor constituído. Com dezenas de título publicados, atualmente vive praticamente de direitos autorais. Considerado um dos grandes contistas da literatura brasileira contemporânea, possui contos e novelas publicados em antologias em mais de dez países. Do México à Noruega. Na Alemanha seus textos estão presentes em três edições distintas.
Vivendo uma intensa fase de produção, trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, o escritor londrinense está concluindo um romance policial social intitulado O Caso da Chácara Chão além de Notícias da Chácara, uma compilação de textos jornalísticos enfocando o lugar em que mora. Três novelas juvenis também estão programadas para serem lançadas no próximo ano. Seu próximo desafio é um romance baseado na lendária marcha da Coluna Prestes.
Você sempre se dedicou a escrever narrativas curtas, contos e novelas. Agora lança seu primeiro romance , Terra-Vermelha, uma narrativa com mais de 500 páginas. O que o levou a optar por um texto de maior fôlego?
Eu não optei, acho que é um desenvolvimento natural do escritor. Fui aumentando o fôlego na medida que eu tive mais informação, mais técnica de escrita também. Foi ficando mais fácil - no sentido de fácil entre aspas. Ou seja, não é mais torturante, não há o envolvimento de pensar muito, as coisas fluem mais naturalmente. Não há mais esforço. Há trabalho, mas não há esforço.
E por que a opção pelo romance histórico?
Eu acho que é um romance histórico, mas também é de costumes, ecológico, político, etc, se você quiser encaixar em categorias. Na verdade, eu acho que ele é um painel, porque eu senti vontade de contar a história da minha terra. Fazendo a biografia O Tempo do Seo Celso eu descobri Londrina. Descobri um história interessantíssima, particularíssima no mundo. O Claude Lévis-Strauss, que é um personagem do livro e que esteve aqui, se espantou com a vitalidade daquela civilização nascendo no meio de uma floresta. E uma civilização, notei depois, que tinha gente do mundo inteiro e lances muito curiosos.
A cultura do café foi do luxo à miséria tão rapidamente.
O que é realidade e o que é ficção no livro?
Eu misturo fatos verdadeiros da história de Londrina com fatos fictícios. Acho que é possível reconhecer onde é ficção e onde é verdade histórica, para isso basta uma equipe de pesquisadores trabalhando durante uns trinta anos para elucidar os fatos. O que eu achei interessante nesse romance foi que eu consegui utilizar fatos históricos de Londrina integrados com fatos ficcionais formando um tecido natural. E ao mesmo tempo mostrar como é mágica e interessante a vida das pessoas que se arriscam, se aventuram, ousam praticar o amor, a rebeldia, um pouco de ousadia. Pessoas que saem da mesmice, como eram os pioneiros de Londrina.
O protagonista do romance, José, passa por várias situações limites, onde grandes transformações ocorrem. Ele atravessa fracassos após fracassos até pisar na terra vermelha, onde as coisas tomam um novo rumo...
Eu o chamo de herói sem querer. Tem o herói sem caráter, o Macunaíma, e tem o herói sem querer. Ou seja, ele é como aquelas pessoas que vieram para cá para buscar um vida nova. Essas pessoas não sabiam que iam criar uma nova civilização, eles não tinham senso de história. Tinham, instintivamente, senso de história apenas quando posavam para fotos coletivas. Ninguém se preocupou em registrar, colocar no papel, contar. O que eles fizeram foi meio sem querer, eram forçados pelas circunstâncias. Eu criei José assim, entre o brilho e a mediocridade. Ele é como a maioria, um homem comum. Eu quis fazer um livro de sequências extraordinárias, mas extraordinária dentro da vida comum.
Você coloca os pioneiros como verdadeiros heróis. Por outro lado foram eles que iniciaram a processo de devastação da região, onde fauna e flora praticamente desapareceram. Não há uma certa contradição nisso?
Mas eu não sou complacente com eles, o romance é cheio de contradições porque nossa civilização é cheia de contradições. Era uma terra fertilíssima e uma civilização que destruiu com a maior rapidez do mundo seus recursos vegetais, não deixando quase nada, nós destruímos tudo com uma voracidade incrível. Tudo promovido pela especulação imobiliária, pelo plantio das lavouras mecanizadas sem nenhuma orientação. A febre da soja, febre do café, foram destruindo tudo, inclusive as relíquias históricas que havia aqui, restos de acampamentos e urnas indígenas, os tratores passaram por cima. Isso tudo é muito contraditório. E agora você vê que surgem aqui, por causa disso mesmo, gerações cada vez mais ecológicas, os novos fazendeiros são altamente preocupados com isso.
Seria a geração de netos de pioneiros?
Sim. O romance também caminha neste sentido, como um painel de gerações, três gerações, pais, filhos e netos. Eu quero acentuar o aspecto simbólico desses personagens - filhos e netos - não dando nome a eles, tanto que eu chamo de filho mais velho, filho do meio, neto mais novo... Não dou nomes porque eles representam milhares de pessoas. Os heróis são tão poucos que seus nomes parecem de pessoas que existiram ou ainda existem. Já os personagens secundários e terciários se confundem com a multidão. Eles são arquétipos eu diria. Eles não merecem nome porque não têm humanidade, são pessoas que obedecem padrões sociais, condutas preconceituosas, esteriotipadas.
São três gerações com valores bem diferentes.
Você vê que o personagem Lázaro Góis (que foi baseado em Álvaro Godoy), em seu leito de morte, dá as chaves desta geração de pioneiros. Havia valores que todos obedeciam sem saber, quase sem querer. Obedeciam esses valores porque vinham de família, de infância, que seriam a verdade, a honestidade, bondade, amizade e a qualidade de fazer as coisas bem feitas. Esses valores antigos uniam aquele grupo de homens. Na verdade acho que é um romance sobre conduta.
Pode ser considerado um romance moral?
É um romance moral. Toda a minha literatura é moral, os contos, os livros infantis, juvenis. Tudo o que eu fiz até hoje é moral, eu sou um chato determinado em melhorar a humanidade. Eu acho que a cultura é um tecido feito de mil fios. Eu sou esse tipo de fio que se dedica a dar esse ponto. Eu escrevo para ao bons de coração e para aqueles que querem melhorar o mundo. A pessoa que procura a arte pela arte, a violência pela violência, não deve procurar minha literatura. Existe muitos tipos flores, este é meu tipo de flor.
O livro passa uma certa nostalgia do passado. O passado como utopia perdida.
Na verdade, aquela Londrina seria como um mundo imaginário onde quem lembra das coisas num leito de morte só lembra das coisas boas.
Considera o passado melhor que o presente?
Pessoalmente não acho isso. Não gostaria que o romance passasse essa mensagem. Eu acho que é um texto crítico, na verdade ele mexe com uma porção de coisas. As pessoas que lidam com política vão se preocupar com um lado, as pessoas ecológicas vão se preocupar com outro e assim por diante.
Você romantiza as primeiras décadas da construção da Londrina. Um romantismo praticamente impossível nos dias de hoje. Como vê esta trajetória?
Eu quis oferecer mitos para minha terra. Quis transformar a história de Londrina, que tem tantos aspectos interessantes, numa história surperinteressante. Além dos objetivos morais de atingir a conduta das pessoas, de dar uma chacoalhada em seus valores, existe o objetivo de defender um pouco minha terra. Eu tenho esse objetivo provinciano, reconheço isso e gosto. Por isso eu não mudei o nome da cidade.
Já foi chamado várias vezes de escritor regionalista. Você se considera como tal?
Olha, eu tinha vergonha, eu tinha medo de me tornar regionalista. Eu queria uma literatura universal de valores universais, não queria me confinar em nenhum região. Até que um dia eu percebi que o melhor palco para passar as coisas que penso, e minha visão de mundo, seria minha terra. Uma terra que conheço, onde tenho os detalhes e posso criar personagens de carne e osso. Foi aí que eu resolvi que meu primeiro romance seria esse. Mas acho que é um regionalismo diferente, eu uso coisas da minha terra para colocar conteúdos universais. Eu não me confino no regionalismo de aparências, particularidades e modos de falar. Uso o regionalismo como palco onde se embatem os grandes valores universais. Os americanos fizeram grande literatura cantando a sua terra.
Você considera que Terra-Vermelha pode oferecer duas leituras distintas, uma realizada pelo leitor que conhece a história da cidade e região, outra realizada pelo leitor que não a conhece?
Sim. Quem lê o livro e não conhece Londrina tem a visão de uma cidade imaginária. Ele vai ler a história e encarar os personagens como fictícios, não ficará limitado pelo realidade. Eu acho que a leitura do londrinense vai ser mais rica. Além do imaginário ele vai ter o real contracenando com o imaginário. Alguns podem até querer discutir com o livro e dizer mas isso não era assim.


