Uma enfermeira de sorte?
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terça-feira, 07 de abril de 1998
Sílvia Herrera Agência Estado 
Nas telas dos cinemas, pessoas do mundo inteiro têm se emocionado com a história de Titanic, o grande campeão do Oscar deste ano. Mas, além do filme, uma biografia lançada no ano passado na Inglaterra, Titanic Survivor (Sobrevivente do Titanic), tem despertado a atenção da imprensa européia. Não por causa do acidente em si, mas por sua autora, a enfermeira argentina Violet Jessop que sobreviveu a dois naufrágios: o do Titanic e do Britannic; e a um acidente em alto-mar a bordo do Olympic.
Os três navios eram luxuosos transatlânticos da empresa britânica White Star, que dividia o mercado apenas com a Cunard, no trajeto Europa/América do Norte. Vale lembrar que nessa época, não havia empresas aéreas e os navios eram o único meio de transporte para atravessar o Atlântico, rumo ao novo continente.
Violet nasceu no dia 2 de outubro de 1887, na Argentina. Aos 18 anos, após a morte de seu pai, foi morar com a mãe na Irlanda, terra de seus pais. Violet sempre enjoava em viagens marítima mas, como precisou trabalhar para ajudar sua mãe, o único emprego que conseguiu foi como camareira em um barco vapor. Três anos depois, aos 24 anos, ela entrou para companhia White Star, e foi aí que começou seu pesadelo ou sorte.
A jovem camareira trabalhou no navio Majestic na primeira classe. Em 1911, foi transferida para o transatlântico Olympic. No dia 20 de setembro, ela estava a bordo, quando o navio partiu de Southampton rumo aos EUA. Em alto-mar, Olympic chocou-se com o cruzeiro britânico Hawke. Ninguém morreu e o navio conseguiu chegar ao destino final mesmo avariado. Mesma sorte não teve Hawke, que foi a pique rapidamente. A culpada da colisão foi a forte neblina.
No ano seguinte, lá estava ela trabalhando na tripulação do famoso Titanic, escalada para aquela terrível viagem que começou no dia 12 de abril. No dia 14, quando a tragédia aconteceu e o Titanic chocou-se com o iceberg, às 23h40, ela estava dormindo. Segundo seu relato, um oficial ordenou que ela subisse até os botes salva-vidas para mostrar as passageiras, todas em pânico, o caminho a seguir.
Quando seu bote estava pronto para ser jogado ao mar, um dos oficiais entregou-lhe um bebê. Foram oito intermináveis horas dentro do bote, na companhia das outras sobreviventes e segurando a criança desconhecida nos braços, até que foram encontradas pelo barco Carphatia. Nesse navio já estava a mãe do bebê, que nem se quer agradeceu a Violet por ter lhe salvado a vida. Com o Titanic desapareceram 1.523 pessoas.
Já em plena 1ª Guerra Mundial, Violet era enfermeira e foi uma das voluntárias a embarcar rumo ao Mar Egeu, no dia 12 de novembro de 1916 no Britannic, que havia sido transformado em navio-hospital. Nove dias depois, o Britannic circundava o Canal de Kea quando bateu, provavelmente, numa mina e afundou em apenas 55 minutos. Das 1.100 pessoas a bordo, 30 morreram.
Para Violet, esse naufrágio foi muito pior do que o do Titanic. Os primeiros a chegar aos botes salva-vidas corriam perigo de vida, pois as gigantescas hélices do Britannic estavam muito próximas e em funcionamento.
Como ela perdeu o lugar nos botes, só lhe restou vestir seu salva-vidas e atirar-se ao mar. Como não era uma boa nadadora, acabou batendo a cabeça três vezes no casco do navio. Quando se deu conta, estava boiando ao lado de vários cadáveres e achou que sua sorte havia acabado... Mas alguns marinheiros a viram e a puxaram pelos cabelos para dentro do bote. Anos mais tarde, descobriu que suas fortes dores de cabeça eram resultado de uma fratura no crânio, daquelas batidas no casco.
Mesmo assim, Violet decidiu voltar a trabalhar como camareira na primeira classe de transatlânticos, profissão que exerceu até 1950. Como no meio deste século, os aviões começaram a tomar o lugar dos enormes transatlânticos, Violet foi morar em Suffolk, na Inglaterra. E foi em sua casa, uma construção do século 16, que ela morreu.


