Jackeline Seglin
De Londrina
O mercado editorial brasileiro é um campo complicado, ainda mais para quem é inexperiente na área. Emplacar um autor, uma obra, nem sempre tem como pré-requisito a qualidade. Os atalhos para chegar às grandes editoras são restritos, geralmente, a quem já tem um nome consolidado. Mesmo porque falta interesse por obras de ‘‘desconhecidos’’. Com isso, os novos autores brasileiros encontram cada vez mais barreiras para fazer com que seu trabalho seja conhecido pelo público leitor – ainda mais longe dos grandes centros, onde o mercado funciona melhor. A alternativa, nestes casos, são as produções independentes ou as ‘‘parcerias’’ com as pequenas editoras.
Em Londrina, o segmento editorial – em literatura, especificamente – parece estar adquirindo representatividade. No ano passado, o editor Paulo Schmidt saiu de São Paulo para abrir sua empresa – a Campanário Editorial – no Paraná. A proposta era fazer chegar ao leitor obras de autores clássicos da literatura universal não disponíveis no Brasil (leia texto nesta página).
Na última sexta-feira, outra editora abriu as portas na cidade. Com uma proposta de investir no talento dos autores, a Atrito Art Editorial entra no mercado para trabalhar com literatura, seguindo uma linha alternativa de publicações. As sócias Christine Vianna e Aline Abovski pretendem incentivar a publicação de trabalhos, só que revertendo o quadro atual e aumentando a participação do autor nos lucros.
Christine Vianna aponta que essa divisão, com base no preço de capa, é geralmente feita da seguinte maneira: 10% a 20% para o autor, 60% para o distribuidor e de 20% a 30% para a editora. ‘‘Isso quando o autor não paga pela edição, o que acontece na maioria das pequenas editoras’’, observa.
A Atrito Art pretende buscar recursos para custear a produção de suas publicações. Os instrumentos para a viabilização podem ser as leis de incentivo, a venda de espaço publicitário em material gráfico e até investimentos da própria editora. Christine Vianna ressalta, entretanto, que sua empresa vai trabalhar com um determinado tipo de publicação, que fuja à linha comercial e tenha qualidade. O primeiro lançamento da editora, daqui a dois meses, deve ser um livro infantil da escritora londrinense Silmara Fernandes.
A princípio, a própria editora será responsável pela distribuição de suas publicações em Londrina e região (posteriormente, para todo o Estado). As sócias também vão executar trabalhos na área de projetos gráficos (como revistas, folders, cartazes) e pretendem, mais tarde, entrar no segmento das traduções. Este não é o primeiro trabalho conjunto de Aline Abovski e Christine Vianna. Ambas atuam e fazem a produção do grupo de teatro Cemitério de Automóveis.
A iniciativa é vista com bons olhos por autores que têm certa experiência no mercado editorial. O escritor, poeta e tradutor Maurício Arruda Mendonça, autor de quatro livros publicados, define como heróica a proposta de estimular e fortalecer a cultura local. ‘‘Claro que, para dar certo, depende da linha de atuação e do público específico’’, declara.
Mendonça publicou, em parceria com o escritor Rodrigo Garcia Lopes, seu primeiro livro – ‘‘Sylvia Plath’’ (tradução) – em 1991, pela editora paulistana Iluminuras. Em nove anos, colocou no mercado mais três obras – pelas editoras Iluminuras, Sete Letras (RJ) e Ciência do Acidente (SP). Para ele, o jogo não é fácil. ‘‘No mercado editorial brasileiro, os grandes nomes têm trânsito. Os menos conhecidos estão fora dos esquemas das grandes editoras’’, diz.
Com cinco livros publicados, o jornalista, tradutor e poeta Rodrigo Garcia Lopes – que acaba de retornar dos Estados Unidos com mais três trabalhos prontos – afirma que já era tempo de surgirem editoras em Londrina. ‘‘A cidade tem uma pequena tradição na produção literária e mostra a sua força. Prova disso são nomes como Domingos Pellegrini e mais recentemente, Mário Bortolotto, Maurício Arruda Mendonça, Marcos Losnak, entre outros. Imagino que exista muita gente produzindo, mas que fica sem repercussão.’’
Para ele, a proposta de vincular a editora a projetos de incentivo ajuda a tirar trabalhos da gaveta. ‘‘Eu fiquei 10 anos atrás de editoras para publicar um livro. Existe uma certa ingenuidade, uma pureza de achar que sua obra merece ser publicada naquele momento... Mas a gente toma muito chá de cadeira e ouve sempre o chavão ‘poesia não vende’. É muito desgastante’’, observa. Apesar das obras publicadas anteriormente, a batalha pela publicação continua. ‘‘Nem sempre a sua urgência é a mesma do editor.’’
Atrito Art Editorial – Av. Juscelino Kubitscheck, 3.718, em Londrina. Telefone: (43) 334-1580. Campanário Editorial – Rua Ibiporã, 289 (sobreloja, sala 1). Telefone: (043) 328-1840. e-mail: [email protected] Atrito Art Editorial abre em Londrina com a proposta de aumentar a participação do autor nos lucros e investir em novos talentos
Dorico da SilvaChristine Vianna e Aline Abovski: intenção é trabalhar com publicações voltadas para a área culturalArquivo FolhaMaurício Arruda Mendonça: ‘‘No Brasil, nomes menos conhecidos estão fora do esquema das grandes editoras’’Arquivo FolhaRodrigo Garcia Lopes: ‘‘A gente toma muito chá de cadeira e ouve o chavão ‘poesia não vende’’’

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