A comédia romântica sempre veio acompanhada de uma ideia descomplicada: no centro da trama, uma garota colocava o amor de um homem como objetivo supremo da vida. Mas os gêneros (ambos, cinematográfico incluído...) sempre foram mais diversificados que isso. Desde as “screewball comedies” (aquela espécie de comédia de situações meio amalucadas – o crítico americano Andrew Sarris a definiu como uma “comédia sexual sem sexo”; mas ele, claro, se referia a filmes da década de 1940), nas quais as ótimas Carole Lombard, Irene Dunne, Katharine Hepburn e Rosalind Russell, entre outras, eram mulheres de caráter que podiam enlouquecer um Cary Grant mais delicado, até um filme célebre como “Bonequinha de Luxo”, que tratava de uma garota que seduzia ricaços e não queria se apaixonar, aquele tipo de romance nas telas tratou mais de conciliar os opostos e transformar os atritos em desejo do que reafirmar os papeis de gênero segundo estereótipos já estabelecidos.

E mais: qualquer bom protagonista masculino de um filme romântico teve sempre um forte componente de vulnerabilidade e delicadeza, como se o gênero estivesse mostrando que o amor (e a diversão que pode ser o namoro) é um estado que não se pode alcançar sem deixar de lado a rigidez, sem abaixar a guarda.

“Casal Improvável” (Long Shot), em lançamento no circuito nacional, se coloca com algum exagero festivo nesta tradição, e pretende ir mais além do que realmente pode e consegue. Pretensões à parte, e levando em consideração que a luz do filme não é assim tão potente, e o túnel continua muito longo, temos surpreendentemente como resultado uma comédia romântica acima da média, uma peça sobrevivente daqueles tempos de boas maneiras picantes mas aqui com forte tempero destes tempos escatológicos em que a grosseria à la irmãos Farrely tem sido mais a tônica dominante. Acima da química funcional (e chocante: alguém me desminta se for capaz...) entre Charlize Theron e Seth Rogen, este mix de classe com áspera modernidade (leia-se incorreção) é o que de fato funciona para a aceitação/sucesso de “Casal Improvável”.

No filme, a deusa Charlize interpreta Charlotte Field, secretária de Estado dos EUA que está indo à luta em sua pré-campanha como candidata à sucessão do paspalho chefe da Casa Branca. Seth Rogen é Fred Flarsky, talentoso e combativo jornalista e escritor no momento desempregado. Numa noite, durante evento político, descobrimos que ela, tempos atrás, foi a baby sitter (e primeiro amor infantil) dele. Charlotte decide contratá-lo para redigir seus discurso. Durante as idas e vindas da campanha, mundo afora, os dois se aproximam e se conectam ainda mais afinados em território romântico, entre outras coisas por conta de referências de cultura pop (“Game of Thrones”) e música dos anos 1980.

Charlize Theron e Seth Rogen em 'Casal Improvável': clima romântico e referências da cultura pop
Charlize Theron e Seth Rogen em 'Casal Improvável': clima romântico e referências da cultura pop | Foto: Divulgação

Eles formam então a clássica dupla daquelas citadas comédias românticas: ela, a típica garota dourada, bela e inteligente, mostrada ao mundo com máscara elitista. Fred é o nerd inadaptado, de vestuário indefinível e com tendência a desferir comentários inadequadas em todas as ocasiões – papel em que Rogen vem se especializando ao longo da carreira. O diretor Jose Levine coloca seus protagonistas em situações pouco ou nada verossímeis e exageradas para explorar a comicidade da trama, e isto funciona mais como acerto do que como reprimenda, já que é nesses momentos que Theron e Rogen, como dupla amorosa, fixam empatia com o espectador.

Como toda rom-com que se preza, e preza quem a assiste, “Casal Improvável” tem excelentes cartas coadjuvantes nas mangas. Sem se importar com seu curto tempo na tela, Bob Oderkirk (o presidente que quer ser ator), Andy Serkis (o empresário de mídias calhorda) , O’Shea Jackson (o amigo negro e republicano) e Alexander Skargard ( o canastrão primeiro ministro do Canadá), Ravi Patel e June Diane Raphael (os assessores da candidata), entre outros.

É neste painel humano que os bons roteiristas Dan Sterling e Liz Hannah encontram e aproveitam boas oportunidades para apoiar sua sátira política sem ser completamente diretos mas o suficientemente claros para entender qual arquétipo estão satirizando. E nesta mesma veia crítica, o filme oferece um discurso contundente sobre o sexismo e as desigualdades de gênero que vivem-padecem as mulheres no trabalho e a obsessão para manter a imagem perfeita. E de modo geral incensa um mundo no qual a categorização do indivíduo se traduz em pura estupidez, de modo que o amor romântico pode sempre sobreviver como uma força transformadora e festiva.

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