Os ex-Trapalhões Renato Aragão e Dedé Santana já são amigos há quase 40 anos. Os dois se conheceram em 1962, nos bastidores da extinta TV Excelsior, onde Renato apresentava o humorístico A, E, I, O, Urca. De lá para cá, não se separaram mais. Só no cinema, foram 36 filmes em parceria. A cada final de ano, Renato repete a façanha de lançar um novo filme. O do ano passado, ‘‘O Noviço Rebelde’’, já se tornou a maior bilheteria da retomada do cinema nacional, com 1,5 milhão de espectadores.
O lançamento da vez é ‘‘Simão, O Fantasma Trapalhão’’, em cartaz desde sexta-feira em 230 salas em todo Brasil. No elenco, o modelo e ator Luciano Szafir e a cantora Ivete Sangalo. Além, é claro, do humorista Dedé Santana, o outro remanescente do quarteto mais famoso do Brasil. ‘‘Não sei trabalhar sem o Dedé do meu lado. Ele é praticamente da família’’, assegura Renato.
Na esperança de repetir a bilheteria de ‘‘O Noviço Rebelde’’, Renato Aragão volta a investir numa estratégia que já está dando certo há mais de 30 anos. A idéia para o novo filme é mais uma das já habituais parcerias entre o humorista e os clássicos da literatura. O escritor agora é o irlandês Oscar Wilde e o seu ‘‘O Fantasma de Canterville’’, escrito em 1888. Em ‘‘Simão, O Fantasma Trapalhão’’, Renato e Dedé interpretam os motoristas de uma família muito atrapalhada, que ganham a vida caçando fantasmas.
Apesar de afastados na tevê desde dezembro de 1996, os dois ainda trocam boas gargalhadas toda vez que se encontram para matar saudades. ‘‘Ainda tenho de me esforçar para não rir das palhaçadas do Renato’’, frisa Dedé.
A direção do 39º longa-metragem da carreira de Renato Aragão ficou a cargo do filho Paulo Aragão Neto. Paulo tinha oito anos quando o pai o levou para assistir a ‘‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’’, de Stanley Kubrick, no extinto cinema Azteca, no Rio. Quando viu pela primeira vez a cena em que o osso é lançado para o alto e se transforma numa nave espacial, Paulo Aragão percebeu que queria fazer cinema. ‘‘Fiquei uma semana sem dormir’’, exagera.
Em 77, Paulo foi trabalhar na produtora do pai, a Renato Aragão Produções, onde exerceu as mais diferentes funções - de produtor a assistente de direção. ‘‘Sempre tive receio de que insinuassem que ele só estava na direção porque era meu filho. Agora, ele já sabe mais do que eu’’, derrama-se Renato.
A difícil tarefa de dirigir um dos recordistas do cinema brasileiro, porém, não assustou o inexperiente diretor. A única preocupação que Paulo Aragão teve foi a de administrar com profissionalismo a admiração que sente pelo pai. ‘‘Às vezes, me dava conta de que estava dirigindo um gênio do cinema nacional e sentia um certo frio na barriga’’, admite. O nervosismo não é injustificado. Afinal, os filmes de Renato Aragão são recordistas de público num país em que os números de cinema são, em geral, bastante modestos.
Desde que estreou no cinema em ‘‘Na Onda do Iê-iê-i꒒, de 1965, Renato já contabiliza 120 milhões de ingressos vendidos. Mesmo assim, não foi convidado para participar da retrospectiva de filmes brasileiros, organizada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York. ‘‘Este é o tipo de preconceito que ainda tenho de vencer’’, desabafa.
Passados mais de 30 anos desde a estréia no cinema, o humor ingênuo e, por vezes, previsível de Renato continua imbatível. Ele discorda quando alguém insinua que o sucesso estrondoso no cinema é decorrente da superexposição na tevê. Para Renato, o motivo de tamanha cumplicidade entre público e artista é outro. Na fase áurea de ‘‘Os Trapalhões’’, quando Mussum e Zacarias ainda integravam o quarteto, Renato não perdia tempo e produzia dois filmes por ano. ‘‘Enquanto a gente filmava um, eu já bolava o roteiro do outro’’, recorda.
Foi assim que clássicos como ‘‘Os Saltimbancos Trapalhões’’, de 1981, e ‘‘Os Trapalhões na Serra Pelada’’, de 1982, ultrapassaram a casa dos 5 milhões de espectadores. ‘‘Não conheço nenhuma fórmula mágica. Só acho que um bom filme tem de ter começo, meio e fim. E, de preferência, um final feliz’’, ensina o humorista.

mockup