Quem forneceu o argumento original para este entretenimento bastante aceitável - e recomendável - foi a BBC, que produziu em 2003 uma elogiada minissérie homônima em seis episódios. Não conheço a fonte, mas pelo resultado na tela grande os ingleses tiveram sorte: o material para esta versão made in USA foi adaptado por Tony Gilroy (a série ''Bourne'', ''Conduta de Risco'') e Billy Ray (''Plano de Voo''), especialistas em tramas e tramoias nas quais, felizmente, não dispensam a incursão ao atraente território das denúncias dirigidas às mazelas deste nosso universo promíscuo que envolve coisas públicas e privadas.
O jornalista Cal McAffrey (Russel Crowe) e sua colega Dalla Frye (Rachel McAdams) tentam esclarecer o assassinato da namorada de Stephen Collins (Ben Affleck), um congressista dos Estados Unidos que plena ascensão e que também é amigo de McAffrey. O político criou uma comissão de inquérito que anda atrás de provas para desmascarar um esquema paramilitar que o governo dos EUA usa em ações dentro e fora do país. A sujeira institucional em risco de ser descoberta obviamente gera reações ainda mais sujas, como envolver criminalmente quem denuncia.
Esta linha argumental é suficiente como ponto de partida para o espectador acompanhar os muitos desdobramentos. Na realidade, um pretexto para expor diferentes ângulos do jornalismo investigativo, da política e da relação entre ambos. Aqui incluídos, claro, elementos clássicos deste subgênero, como corrupção, conspiração, escândalos sexuais, Estado e mídia. Neste sentido, boa parte da trama lembra aquele tipo de thriller político-criminal dos anos 1970, aquele tom paranoico imprimido por diretores notáveis como Alan J. Pakula e John Frankenheimer.
A direção do escocês Kevin Macdonald, familiarizado com a recriação de fatos reais (''O Último Rei da Escócia'') e portanto capaz de imprimir a necessária aparência de verossimilhança, é sempre ágil e competente para fortalecer as amarras do ritmo tenso que se impõe à narrativa. Assim, ao prólogo de pura ação e suspense, segue-se uma série de intercorrências que incluem a questão controvertida da privatização de serviços, a descrição das atividades jornalísticas, o drama das problemáticas relações afetivas de personagens maduros e inteligentes e momentos de violência que em nenhuma momento parecem gratuitos.
A destacar o excelente trabalho de câmera do mexicano Rodrigo Prieto e um elenco que rende o máximo, especialmente Russel Crowe como o jornalista boêmio, mulherengo e extrovertido. Um exemplar tão fascinante quanto em franca extinção.

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