Londrina

Nana Caymmi: uma intérprete capaz de transformar até as banalidades em obras-primasO repertório é conhecidíssimo. Muitos já gravaram parte das músicas. Mas é Nana Caymmi quem canta e, por esse motivo, tudo soa tão personalizado que a gente acaba até esquecendo que certas canções já torraram um pouco a paciência. Nana tem o dom de não só resgatar velhas canções como dar-lhes um fôlego novo graças à sua maneira comovente de cantar. As canções em que ela enfia a voz parecem ganhar a versão definitiva. Coisas de diva. E essa diva está lançando ‘‘No Coração do Rio’’ (EMI), gravado ao vivo no Teatro Rival, no Rio de Janeiro. Trata-se de seu primeiro disco solo gravado ao vivo.
Nana se faz acompanhada apenas de Cristovão Bastos ao piano e João Lyra ao violão. E o trio ternura faz maravilhas. Ora, o que se poderia esperar de um encontro de dois consagrados e competentes músicos com a mais sofisticada cantora da MPB? Resposta: emoção à flor da pele. O público saboreia cada momento. Palmas e mais palmas a cada final de canção. Palmas sinceras, é bom frisar.
A dobradinha piano e violão não cai no quadradismo que esse tipo de formato normalmente ocasiona. O entrosamento é perfeito. Claro que os louros maiores acabam ficando com Nana porque Nana... ora Nana é Nana e ponto final. Sua voz aveludada, sua inflexão, sua respiração, sua maneira de embalar canções é algo que está acima de qualquer suspeita.
O repertório, agrupado em pout-pourris, é composto de clássicos e mais clássicos. Lá estão ‘‘Chão de Estrelas’’, ‘‘Carinhoso’’, ‘‘Saia do meu caminho’’, só para citar alguns. Milhões já gravaram, deram versões assim ou assado. E Nana resolveu gravar assim mesmo. E ficou lindo.
É o tal negócio: se Nana fosse apenas uma cantora - como Zizi Possi ou Marisa Monte - até poderia cair na lenga-lenga. Mas ela é sobretudo uma intérprete, uma vigorosa intérprete capaz de tornar até banalidades como ‘‘Parabéns a Voc꒒ ou ‘‘Sambalelê Tá Doente’’ em algo arrepiante.
A cantora também revisita alguns de seus sucessos como ‘‘Se Queres Saber’’ e ‘‘Medo de Amar’’ e dá sua versão para músicas nunca antes registradas por ela como a delicada ‘‘Todo o Sentimento’’ (Cristóvão Bastos-Chico Buarque) e a piegas ‘‘Sorri’’ (versão de Braguinha para ‘‘Smile’’, de Charles Chaplin).
Obviamente Nana já gravou discos melhores. Memoráveis discos. Porém, ‘‘No Coração do Rio’’ não deixa a desejar em nenhum momento. É um disco para fãs. A esses tanto faz se Nana grava em estúdio ou não, se canta músicas inéditas ou faz apenas regravações. Sabem que ela vai arrasar de qualquer jeito. Ora, uma diva nunca decepciona.

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