A indicação de ‘‘O que é isso, companheiro?’’ ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira pode ser animadora para o cinema brasileiro, mas não deixa de ser uma saia justa. É animadora porque pela segunda vez em três anos um filme brasileiro entra na competição: uma espécie de atestado de progressos artesanais. E o filme de Bruno Barreto é, antes de tudo, uma aventura bem resolvida. Saia justa porque, para chegar a uma trama emocionante (como aventura e como policial), Barreto e seus roteiristas promoveram alguns remanejamentos arquiduvidosos no caráter de um personagem, Jonas. Já que o vilão não podiam ser os guerrilheiros (Fernando Gabeira escreveu o livro), nem o embaixador sequestrado (hoje não se vêem os norte-americanos como vilões, e, segundo inúmeros testemunhos, Elbrick não o seria em hipótese alguma), providenciou-se um Jonas oscilando entre o fanatismo, a demência e o cretinismo.
Ok para as necessidades dramáticas. Mas os companheiros de Jonas levantaram a saia: ele era um homem digno, que morreu sob tortura sem entregar companheiro algum, não o canalha retratado no filme. Gabeira e Bruno defenderam o filme dizendo: ‘‘É um personagem de ficção’’. Os ex-esquerda (ou ainda esquerda, não importa) responderam que não é bem assim: não se pode usar um personagem histórico, que está na ordem dos fatos, distorcer sua personalidade e depois remeter tudo à ficção. Eles têm razão: ou bem a obra é uma ficção, ou bem tem como base certos fatos. Pode-se ajustar algumas coisas, mas não mudar a personalidade de um protagonista sem ao menos alterar-lhe o nome. É preciso um torniquete, senão passa-se do histórico ao ficcional ao sabor das conveniências. Daí deriva outra questão: se Jonas foi eleito ‘‘vilão’’, foi para melhor caracterizar os demais guerrilheiros como jovens e inocentes, que agiam a mando de pessoas experientes e não muito escrupulosos. Eram idealistas ingênuos que enfrentavam um governo militar também malvado etc. Em suma, ‘‘O que é isso, companheiro?’’ produz uma visão centrista da era da guerrilha, enfatizando a ação e rebaixando o aspecto político da história. O pecado capital do filme, no entanto, terá sido distorcer os fatos para que eles coubessem num formato - mais do que num ideário. Talvez o apoliticismo, que de que derivou essa distorção, nos Estados Unidos, acabe lhe dando um empurrão.

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