O diretor e ator francês François Kahn apresenta hoje e amanhã em Londrina no espaço do Ballet Municipal, o espetáculo ‘‘O Relatório’’, monólogo baseado no conto ‘‘Um Relatório para uma Academia’’ de Franz Kafka. Estas serão as únicas apresentações de Kahn em Londrina, que na última quarta-feira esteve em São Paulo, capital. Domingo ele volta para a Itália onde mora e trabalha.
A vinda do ator e diretor francês é uma promoção do L’Atelier - Criação Teatral com sedes na Itália e em Londrina, e da Funcart. A história é uma discussão sobre a questão da liberdade, personificada na figura de um chimpanzé que é capturado.
O animal conversa com os membros de uma academia de ciências sobre como chegou a esta condição de falar, de ser um quase humano e ao mesmo tempo ser um macaco. Ele acaba descobrindo uma saída para não viver enjaulado já que a liberdade ele perdeu ao ser capturado e não a terá mais. ‘‘A obra de Kafka possui vários níveis de compreensão. Não é possível fazer apenas uma leitura’’, explica Kahn.
Fascinado pelo universo kafkiano, Kahn já adaptou para o teatro vários textos do escritor tcheco. Embora tenha trabalhado com diversos outros escritores - de Proust a Fernando Pessoa -, mas o ator e diretor francês sempre revisita Franz Kafka.
O olhar peculiar que escritor lançava sobre a realidade é o que tanto atrai Kahn. ‘‘A inquietação dele diante do mundo e a origem cultural judaica, a mesma que a minha, também me aproximam muito dele’’, afirma. ‘‘Ele era uma pessoa fora do comum’’.
Entre outros contos de Kafka adaptados por Kahn está ‘‘Josefine, La Cantante’’. Segundo trabalho que ele apresentou em Londrina, poucos anos depois de apresentar-se aqui pela primeira vez, em 1989, como ‘‘K. A Última Hora de Franz Kafka’’, escrita por ele.
Foi a partir desta apresentação que o ator e diretor francês sentiu a necessidade de traduzir seus espetáculos para o português. Kahn explica que pelo fato de o texto ser fundamental em seu trabalho - ‘‘Trabalho com textos literários e não teatrais’’ - é importante fazer-se entender. ‘‘Seria pouco generoso de minha parte não oferecer à platéia condições para que me entendam’’, avalia.
Kahn compara o trabalho de tradução à troca de pele das cobras. ‘‘Passar de uma linguagem para outra é como perder a pele’’, afirma. ‘‘O Relatório’’ estreou ano passado na Itália e para trazê-lo à Londrina, o ator e diretor teve que refazer todo o espetáculo. ‘‘É muito complicado. No início é como se existisse um muro de resistência’’, diz.
Apesar das dificuldades, Kahn insiste em trazer trabalhos para o Brasil por considerar importante para o europeu ficar um pouco fora dos seus países de origem: ‘‘A Europa não é o mundo’’, diz. ‘‘O Brasil para mim é tão real quanto à Europa, ao menos, quanto a possibilidade de apresentar um trabalho artístico’’, conclui.
Entre seus projetos ainda sem data para serem realizados está a montagem de ‘‘O Processo’’, também de Franz Kafka, com jovens atores de vários lugares do Brasil, a partir do roteiro de Orson Wells. Amanhã Kahn volta para Nápoles, onde reside atualmente, para continuar as apresentações de ‘‘O Relatório’’ em italiano.Cesar AugustoFrançois Khan explica seu interesse por Franz Kafka: ‘‘A inquietação dele diante do mundo e a origem cultural judaica nos aproximam’’Érika Pelegrino

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