O calor intenso da Serra do Roncador acorda cedo as pessoas alojadas em barracas, à beira do mato. Às 7 horas do dia 22 setembro, místicos de todo o País já se despediam da vestal Deusa na Gruta do Santuário. Logo mais, às 9 horas, ela falaria com a imprensa pela primeira vez. O contato dos profissionais urbanos e racionais com a mística do Mato Grosso se deu num acampamento, à sombra de um ônibus, onde a vestal apareceu de chapéu de palha, calça e camisetas brancas, sentada ao lado do marido Armando Luvson. A mulher de 55 anos, de baixa estatura e olhos esverdeados, fala baixo e delicadamente, fazendo pausas quando um avião cruza o céu do Roncador.
A paixão pelos aviões começou na infância, quando morava na fazenda dos pais, no município de Barão Melgaço, no Pantanal (MT). Uma de suas brincadeiras era abrir os braços, imitando um vôo sobre o campo, indício de liberdade da menina que detestava roupas e deu muito trabalho em casa e no colégio de freiras, quando começou a mostrar sinais de paranormalidade aos 9 anos.
Deusa afirma que a irmandade Filhos do Sol é baseada em três princípios: o crescimento monetário, físico e metafísico. Questionada sobre a importância que o dinheiro teria nesta escala, responde que a abundância é parte do projeto destinado aos habitantes da Serra do Roncador. Às perguntas sobre os votos de pobreza manifestados por grandes santos do mundo como São Francisco de Assis e o próprio Buda ela responde que eles trilharam o caminho do misticismo depois de usufruir das riquezas que também lhes deram conhecimento. O dinheiro, segundo ela, deixa as pessoas mais relaxadas, facilitando a compreensão das coisas da Terra e do céu. Não houve tempo para questioná-la sobre a vida de outros iluminados como Jesus, que nunca conheceu a riqueza nem deu valor ao dinheiro.
As contradições da Deusa do Pantanal saltam aos olhos e põem os céticos em alerta, ao mesmo tempo em que sua espontaneidade cabocla desarma argumentos mais duros. Ela deixa claro que não busca o aumento de suas próprias posses, mas deseja que os ''buscadores'' encontrem também a abundância material para que não vivam carentes ou preocupados.
O marido da vestal e ''guardião do Roncador'', Armando Luvson, não esconde que a comunidade pagou caro pelos 300 hectares onde fica a Gruta do Santuário: cerca de R$ 350 mil reais conseguidos através de doações de pessoas de norte a sul do País. O valor não significa muito para os seguidores da ordem. Oriundos de classe média alta, eles invariavelmente têm formação acadêmica, dinheiro e cultura. São médicos, engenheiros, advogados, professores universitários de todos os cantos do Brasil que vão ao Mato Grosso participar dos cultos.
A médica mineira Sandra Regina da Silva, 36 anos, há dois anos frequenta o Roncador. Diz que na Gruta do Santuário sente ''uma energia forte, uma carga de eletricidade que percorre o corpo e leva a uma sensação de êxtase''. Como prova física dos ''milagres'' que acontecem na gruta, ela cita os rituais de cura que puderam ser presenciados na noite de 21 de setembro.
Da mesma forma, o mineiro Olavo Romano, 64 anos, considerado um dos ''apóstolos'' do Roncador, não tem dúvidas sobre a autenticidade dos cultos da Deusa, ''capazes de conectar os seres humanos com mestres espirituais da quarta dimensão''. Autor de livros de história e regionalismo, advogado, ex-professor e ex-chefe de gabinete da Secretaria de Turismo de Minas Gerais, Olavo vem trabalhando há um ano meio nas cerimônias dos Filhos do Sol. Uma prova de que a crença independe do grau de cultura dos adeptos. Decisivamente, os ''buscadores'' do Terceiro Milênio apostam todas as fichas na fé.

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