Uma delicada aposta na vida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de novembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Não é apenas uma história sobre terceira idade. Depois Daquele Baile, a principal estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema nesta página), é filme que se nega a fazer proselitismo oportunista em torno de um tema que, a torto e a direito, virou bandeira de correção, seja na prática de políticas publicas, seja através das iniciativas privadas.
O argumento aqui a palavra é bem ajustada à situação, e pode ser também tomada em seu sentido semântico , não se enclausura nos limites estreitos daquela visão míope que enxerga o assunto como terapia pré-senil, como fórmula de alquimia à base de Viagra e reposição hormonal. Vai mais além, retira os antolhos do conformistmo e propõe abrir a discussão, de maneira entre divertida e sempre terna, jamais didática, nunca paternalista.
Quem são os maduros da hora e vez da felicidade? Ela é Doris (Irene Ravache), bela e desfrutável viúva, repleta de vitalidade. Mora numa dessas vilazinhas com várias casas que o tempo imobilizou e gastou, sem no entanto ressecar, num subúrbio de Belo Horizonte. Especialista em culinária mineira e ajudada pela sobrinha Bete (Ingrid Guimarães), que veio do interior, Doris dá pensão para algumas poucas pessoas. Entre estas, eles, os dois freqüentadores mais assíduos.
Freitas (Lima Duarte) e Otávio (Marcos Caruso) são muito, mas muito amigos mesmo. A ponto de dividir reminiscências e confidências. E também uma grande paixão pela muito charmosa viúva. Querem tê-la, claro, cada um para si com exclusividade, mas no fundo respeitariam qualquer decisão que ela viesse a tomar, optando por um ou por outro. Curtiriam uma dorzinha de cotovelo, mas a camaradagem e a franqueza falariam mais alto.
Neste momento é acionado pequeno desvio de rota, e adicionado o ardiloso tempero da incorreção política. Tomados pelo calor da disputa, condicionam a empreitada amorosa a um sorteio. Quem ganhar terá trinta dias para tentar a conquista em lances abertos e transparentes, que é para não interferir na serena e cúmplice relação entre os dois. O objeto do amadurecido desejo da dupla de galanteadores, é óbvio, não está alheio ao processo, discreta mas ardilosamente estimulando a competição.
Por que não, uma comédia romântica à brasileira? Por que não com personagens apaixonados formando um triângulo amoroso, no qual cada um conta mais de meio século de idade? O filme, assinado pelo ator Roberto Bomtempo estreando na direção, tem roteiro muito correto, dele e da jornalista e crítica de cinema Susana Schild a partir de peça do autor mineiro Rogério Falabella, pai da atriz Débora Falabella.
Falando ano passado no Festival de Brasília, onde o filme concorreu, Bomtempo assumiu seu interesse pelo assunto que aqui se desdobra: amor e sexo na terceira idade; amizade, carinho, compreensão e tolerância em qualquer idade, é o que ele diz neste seu primeiro trabalho que transcorre sereno e contemplativo em ritmo de afetuosa e simples mineirice. O elenco é trunfo indiscutível para que tudo transcorra em harmonia. Lima, Irene e Caruso formam um trio central muito à vontade, enquanto as cores mornas, esmaecidas da fotografia de Nonato Estrela contribuem para reforçar, nos interiores da pensão e nos cenários de Belo Horizonte, uma desejada sensação de encantamento.
Cinema de fato, extraído de fonte teatral, Depois Daquele Baile é demonstração evidente de uma dramaturgia que nada tem a ver com a tevê, em que pese a assiduidade de seus atores na grade de telenovelas, especialmente da Rede Globo. Aliás, o filme é também exemplo de capacidade de síntese: em 108 minutos, está lá contada, e bem contada, uma trama que, se impulsionada pelo estica, puxa e repuxa dos autores globais, ficaria no ar por tempo não inferior a dez, doze meses.
Então, graças ao bom cinema que se produz hoje no Brasil e a um preço justo e acessível, é possível ao espectador o encontro com ele mesmo, com sua forma de ser, com a sua cultura, com a sua cara, com a gente de seu país. Diante de todas as dificuldades entre a idéia e o filme pronto na tela, convenhamos que a recompensa não é pouca.


