Uma década sem o mago do rock
Nelson Sato
de Londrina
Raul Seixas, o filho bastardo do rock nacional, morreu há dez anos. Mas sua ascensão e queda, aparentemente devassadas pela imprensa, continuam à procura de um biógrafo.
A obra, só lembrada em datas como as de hoje, permanece subestimada pela crítica. Quase nada se falou, por exemplo, de seu pioneirismo na mistura de rock e ritmos nordestinos quando o estilo dominou as paradas no começo dessa década revelando nomes como Chico Science e Raimundos.
Sua própria trajetória, repleta de conexões com a história da música popular do país, costuma ser omitida pelos articulistas. Ninguém se lembra de citar Raulzito ao evocar os famosos festivais dos anos 60 e 70 mas foi o 7º Festival Internacional da Canção, de 1972, que o revelou para o país com a música Let me Sing, Let me Sing. O tatibati gira sempre em torno de Chico, Caetano, Gil, Elis e afins.
Raul lançou 17 discos, armou barracos com uma pilha de gravadoras, cultuou a magia negra e arrebanhou uma legião incontável de fãs. Sua popularidade impressiona. O público, curiosamente, parece crescer a cada ano com a descoberta de seu legado pelos mais jovens.
É um dos artistas que, mesmo depois da morte, tem venda boa e constante. Um certo consenso atribui seus melhores trabalhos aos gravados durante os anos sombrios, período em que o país viveu as ilusões do milagre econômico sob as botas dos militares.
A lista de álbuns antológicos incluiria Krig-Ha Bandolo (1973), Gita (1974), Novo Aeon (1975) e Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás (1976). A canção Ouro Tolo, um clássico do pop nacional, talvez seja a primeira crítica à falsa euforia e aos bens de consumo colocados à disposição de uma classe média que adquiria seu Corcel 73.
Raul não passou impune pela época. Como muitos de sua geração, foi acusado de subversão, preso e torturado. O motivo foi um panfleto que escreveu em parceria com Paulo Coelho intitulado Sociedade Alternativa, no qual postulavam uma espécie de anarquismo hippie. A música homônima levou a mensagem às multidões, sintetizada no refrão faz o que queres, pois tudo é da lei.
A partir de 1977, a obra oscilou entre bons e maus momentos sem repetir o êxito dos trabalhos anteriores. Há quem afirme que muitos discos dessa fase ganharam culto posterior menos pelo valor musical do que pela assinatura nos créditos. Mas o sucesso retornou na década seguinte com a gravação da música Carimbador Maluco para o especial infantil da TV Plunct Plact Zoom.
O álbum Uah Bap Lu Bap Lah Béin Bum!, de 87, também emplacou nas paradas a faixa Cowboy Fora-da-Lei. No fim da vida, abandonado pelas gravadoras, com poucos amigos e com a saúde debilitada pelo alcoolismo, Raulzito só conseguia caminhar no palco amparado pelo roqueiro Marcelo Nova com quem excursionou pelo país e lançou o álbum Panela do Diabo.
Raul, porém, não teve tempo para ver o sucesso da gravação. Morreu no dia 21 de agosto de 1989, de parada cardíaca, sozinho em apart-hotel no centro de São Paulo.





