Uma dança, uma realidade
Uma dança, uma realidade
Companhia mineira traz espetáculo que tematiza a violência infantil misturando dança, filme e desenho animado
Nelson Sato
DivulgaçãoCreme: a violência é mostrada através de signosNo princípio era o Verbo. A dança veio bem depois, mas prescindiu da palavra. Como que fiel a esse preceito, a bailarina e coreógrafa mineira Adriana Banana recusou nomear sua companhia com base linguística batizando-a com uma equação matemática inspirada na astrofísica: Ur=H0r.
Ur=H0r, que para os cientistas representa a contínua expansão das galáxias do universo, trata porém de um tema explosivamente mundano no espetáculo Creme, que entra em cartaz hoje, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro de Londrina.
Apesar do título singelo, o espetáculo se inspira no tema da violência infantil, uma das muitas mazelas sociais do País. Mas Creme não transforma o palco em tribuna política nem em espaço para a representação teatral. Não mostramos nada explicitamente. A dança não é ilustrativa, ninguém fica simulando cenas de violência - diz a fundadora do grupo.
O público perceberá a violência através de signos como bonecas pegando fogo, uma gangorra feita de arames farpados ou um revólver apontado para uma flor - tudo disparado por projeções que transportam um modesto aparato multimídia para o palco em linguagens que mesclam cinema e desenho animado.
A coreógrafa lembra que durante a fase de pesquisa para a montagem, ouviu um relato aterrador de uma das bailarinas da companhia. Ela ouviu, no ônibus, duas moças conversando e uma aconselhava a outra a botar a cabeça do filho no forno, abrir o gás, que o ataque epiléptico dele parava logo. Fatos assim acontecem por aí, mas não são divulgados.
Creme é o primeiro espetáculo do Ur=H0r, que estreou em outubro do ano passado no Rio. Apesar do debut, todos os bailarinos trazem experiências anteriores na bagagem: Joaquin Elias (que será substituído em Londrina por Roberson Nunes) já passou pela companhia Primeiro Ato; Luciana Gontijo fez parte do Dudede Hermann; Thembi Rosa integrou o Oficina Multimédia; e a própria Adriana dirigiu a Cia. de Dança Burra, além de ter trabalhado para o renomado Alain Platel, no grupo belga Les Ballets C. de la B.
A música de Creme foi criada pelo duo eletrônico Tétine, formado Bruno Verner e Eliete Mejorado. O CD com a trilha, aliás, estará à venda durante o espetáculo, que será reapresentado amanhã nos mesmos horário e local. Depois de Londrina, o Ur=H0r segue para São José do Rio Preto, Uberlândia, Porto Alegre culminando com o espetáculo inaugural do Festival de Cultura Portuguesa em São Paulo, em setembro.
Creme, espetáculo de dança com o grupo Ur=H0r. Hoje, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Rua Rio de Janeiro, 113. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e servidores da Universidade Estadual de Londrina pagam meia).





