Uma dança completamente brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 2008
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
O que é bom não tem idade. O velho ditado é a mais pura verdade e o relançamento de Dança da Meia-Lua é prova disso. A trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo feita por encomenda do Ballet Guaíra chega em CD, 20 anos depois, com músicas que serão eternas, sempre. Com certeza, nossos netos, e bisnetos vão ouvir essas canções em formatos modernos e vão ficar com a mesma cara de encantamento.
O CD tem onze das criações originais da dupla. Ficou de fora a instrumental Pas de Deux, por exigência de Edu Lobo.
A gravação é um desfile impressionante de talentos, começando com Abertura, com o Pau Brasil. Em seguida, Cláudio Nucci canta Casa de João e Rosa, uma poesia singela de Chico Buarque, sobre a morada botão de Rosa erguida por João. Uma das músicas mais divertidas do CD é A Permuta dos Santos, interpretada pelo Garganta Profunda. Judiado pelas fomes, secas e tragédias sociais, o povo apela para o último remédio, a fé; e dá-lhe trocar os santos de igrejas e paróquias, numa andança por altares e andores que termina num tom de realismo bem irônico: se não resolverem o problema, os santos terão que voltar para suas casas a pé!
Uma Gal Costa endiabrada canta um frevo com o diabo no corpo, torto, corpo, pára mais não....
E é hora de respirar fundo enquanto Edu Lobo conta seu dilema amoroso na canção que dá título ao CD. Quando está com Lia, ele pensa em Rosa e se navega no barco de Rosa, queria estar na ilha de Lia. Leila Pinheiro dá um nó no coração com Abandono e Chico aparece em Tablados, com um toque de Astor Piazzolla.
Tororó é a fonte (literal) de inspiração para Danilo Caymmi reconhecer que sem a mulher, a vida do homem era quase pó/que ficava em pé/era um saco só.... No final, a velha cantiga de roda lembra o moço que vai na bica procurar água e volta com uma bela morena.
Zizi Possi faz um apelo em Sol e Chuva: Se esta noite o tempo vai virar/não me deixes sair sozinha/pode amanhecer/tudo fora do lugar/posso não estar aqui....
E para quem acha que já esgotou todas as maneiras de dizer eu te amo, Valsa Brasileira prova que Chico é mesmo um mestre das palavras e sentimentos. Interpretada por Edu Lobo, que também assina a requintada melodia, a música parece uma viagem no tempo.
Para acabar, o grupo Pau Brasil volta com o instrumental Dança das Máquinas, que você vai ouvir várias vezes até apreender cada detalhe mágico do teclado, violões, guitarras, cavaquinho, baixos, sax e flautas. Quase dá para imaginar os bailarinos no palco, se contorcendo em frenesi, se tocando delicadamente, flutuando, correndo, gingando, numa mistura de dramas, estórias e memórias, numa dança da meia-lua, completamente brasileira.


