Um dia antes da chegada a Curitiba do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que alerta sobre o fim de uma civilização e início de uma era de desaparecimentos para dar lugar a uma uniformidade onde tudo é igual a tudo, a fotógrafa Milla Jung abre sua exposição ‘‘Pataxó, um índio no espelho’’, hoje, às 19 horas, no Memorial de Curitiba.
Para Milla, somos todos agentes da catástrofe em que vivemos. ‘‘Isso inclui os índios. Eles são consequência de como agimos’’. Ela é pessimista em relação ao futuro dos índios brasileiros: ‘‘não há esperança. Não é mais possível um regresso. O que faz a gente insistir é a possibilidade de um respeito à individualidade’’.
O papel da fotografia, analisa Milla, é construir a memória coletiva e mostrar que as diferenças culturais têm de ser respeitadas. ‘‘Para saber quem somos hoje é preciso saber quem fomos. Devemos parar e pensar em que podemos nos tornar’’ alerta.
Milla diz que não imaginava encontrar os índios pataxós vivendo da forma como estão na aldeia Coroa Vermelha, em Porto Seguro (BA). ‘‘Achei que restasse um pouco de alegria, alguma emoção. Mas me deparei com uma realidade cruel. Os pataxós estão vivendo a representação deles mesmos.’’
Para sobreviver, os pataxós, que em casa vestem roupas como os brancos, se fantasiam de ‘‘índios’’ para os turistas, vendem objetos produzidos em fábricas como se fossem artesanato. Representam a farsa de si mesmos. ‘‘Há um grande vazio entre o que os índios foram e o que são. Não existe mais a natureza exuberante e o branco não é índio. ‘‘Os pataxós representam o que não são mais. Vivem uma imagem folclórica de si mesmos, que eles nem sabem como 钒, conta.
Na festa dos 500 Anos do Descobrimento, quando a fotógrafa esteve em Porto Seguro, o projeto era fotografar em cores. Um contato com os índios fez com que mudasse imediatamente o foco de suas atenções. O filme passou a ser preto e branco e o sentido da viagem mudou completamente. A miséria, a influência da televisão, a degradação dos valores tradicionais, a submissão diante do branco e de instituições como a igreja passaram a ser os problemas abordados no trabalho.
Mas os pataxós são teimosos. Ainda resistem no mesmo lugar onde foram encontrados pelos europeus. ‘‘De alguma forma, os índios quiseram tirar proveito da festa dos 500 Anos. Para tirar uma foto, no início eles pediram R$ 4 mil. Parecia que estavam dizendo: me valorizem, mesmo que seja pagando caro’’. De alguma maneira, a exposição dos pataxós fala também do homem brasileiro com suas raízes no sertão, descendente de índios, mas sem saber disso.
O projeto da exposição foi patrocinado pela Telepar Brasil Telecom por intermédio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Exposição ‘‘Pataxó: o índio no espelho’’, da fotógrafa Milla Jung. Abertura hoje, às 19 horas, na Sala Paraná do Memorial de Curitiba (Largo da Ordem). A mostra permanece até o dia 21 de janeiro de 2001, de terça a sexta-feira, das 9 às 18 horas; sábados e domingos, das 9h às 15 horas. Entrada franca.

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