Uma criança, duas casas
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Família sempre foi e sempre será família. A essência nunca muda, mas a forma pode sofrer várias alterações. Nos últimos tempo a família tradicional homem e mulher unidos para o resto da vida sofreu sensíveis transformações. Separações entre casais tornou-se um fato. E as crianças passaram a conviver, cada vez mais, com essa nova situação.
Nos últimos anos essa realidade tornou-se um dos temas visitados pela literatura infantil. Dois livros lançados recentemente, João Tem Duas Casas e Um Família Parecida Com a da Gente revelam como o tema pode ser tratado de maneira sensível, verdadeira e por que não dizer, com beleza.
De autoria de Dominique de Saint Mars e Serge Bloch, João Tem Duas Casas utiliza a linguagem de história em quadrinhos para contar a história de João, um menino de oito anos de idade que mora com a mãe e visita o pai nos fins de semana. João passa por um verdadeiro aprendizado, tanto na compreensão de seu próprio lado emocional como no entendimento das pessoas próximas.
Suas relações com a mãe, o pai, a madrasta, a filha da madrasta e o meio-irmão passam pelo conflito para alcançar a tranquilidade, o entendimento.
Com uma abordagem quase didática, a obra lançada pela Editora Companhia das Letrinhas apresenta no final uma série de questões para a criança responder ou mesmo pensar sobre o assunto.Também traz um pequeno dicionário definindo termos correlatos como padrasto, meio-irmão, companheira, etc.
De Rosa Amanda Strausz e ilustrado por Ivan Zigg, Um Família Parecida Com a da Gente apresenta os mais variados tipos de família, cada qual com suas diferenças e particularidades. Para isso, a autora traça um paralelo entre o homem e o animal. Por exemplo, o pássaro que faz o ninho e desaparece, deixando para a fêmea a tarefa de chocar os ovos e cuidar dos filhotes, é semelhante à família de Eduardo e Cris, onde a mãe é quem cuida dos filhos.
A ema que bota o ovo deixando para o macho a tarefa de chocá-lo e cuidar dos filhotes é semelhante à família de Felipe e Luísa que moram apenas com o pai. A gata que tem filhotes com vários gatos, o cachorro que se une a várias cadelas, também são lembrados como exemplo. Lançada pela Editora Ática, a obra sugere à criança que sempre há uma família parecida com a dela. E se não há, é só inventá-la.
Trata-se de dois livros realizados de maneira cuidadosa, que abordam o tema com clareza e esmero. Oferecem à criança uma possibilidade de identificação. Mostram que sua condição familiar não é nenhuma anomalia, e sim mais um gênero como qualquer outro a diferença aceita com naturalidade. Algo como uma injeção de auto-estima infantil.
Vale lembrar outra obra sobre o mesmo tema, com enfoque distinto, carregado de humor. Em Dois de Cada (Editora Ática), Babette Cole conta a história de dois irmãos que, diante das constantes brigas dos pais, resolvem promover o descasamento deles. Com direito a festa, padrinhos, e padre.
João Tem Duas Casas de Dominique de Sainte Mars e Serge Bloch, Editora Companhia das Letrinhas, tradução de Denise Pegorim, 48 páginas, R$ 16,00. Público-alvo: infantil.
Uma Família Parecida com a da Gente de Rosa Amanda Strausz, ilustrações de Ivan Zigg, Editora Ática, 24 páginas, R$ 8,90. Público-alvo: infantil.





