Depois de anos retratando e criticando a visão masculina tradicional das mulheres, a polêmica feminista Shere Hite encontrou um novo alvo - a visão feminina tradicional da mulher.
Hite ficou famosa pelos relatórios sobre sexualidade, que causaram furor e se tornaram best sellers, nos anos 70 e 80, deixando marcas indeléveis na sociedade ocidental. Ela acredita que as mulheres agora querem mais do que a amizade feminina ortodoxa - mas sem a parceria sexual do lesbianismo.
‘‘As mulheres, como adultas, estão começando a perceber que querem um terceiro tipo de relacionamento’’, diz Hite, que desistiu da cidadania norte-americana e tomou a alemã, depois de ter recebido duras críticas por seu trabalho nos Estados Unidos.
Da mesma maneira que os homens apreciam o contato físico dos esportes e socializar em um ambiente exclusivamente masculino, as mulheres estão começando a sentir a necessidade de algo mais das outras mulheres do que apenas círculos de bate-papo e aulas de culinária.
Hite apresenta seus pensamentos mais recentes em um novo livro, ‘‘How Women see Women’’ (Como as Mulheres Vêem as Mulheres), ainda sem data de publicação no Brasil. O livro deve atrair seu pedaço de cobertura da mídia sensacionalista. As mulheres não devem ter medo de se aproximarem umas das outras, elas podem celebrar sua proximidade através de abraços frontais com contato total do corpo ou mesmo beijos nos lábios, sugere Hite.
Isto não significa que elas tenham que ser amantes. ‘‘Crianças adoram ser abraçadas e isso não é sexual’’, conta ela à Reuters. ‘‘Nossa sociedade está tão focada nisso que todo tipo de toque é encarado como sendo de natureza sexual. Isto é errado.’’
Muitas mulheres já começaram a quebrar o estereótipo comum de relações femininas - comprando casas, tocando negócios e criando famílias juntas. ‘‘Há um tabu maior que o do lesbianismo, que é o da lealdade entre mulheres’’, conta Hite. Para a pesquisadora, a sociedade encoraja as mulheres a verem umas às outras mais como competidoras do que como aliadas. Mas ela vê sinais de que esse pensamento está mudando.
O novo livro de Hite a coloca de novo sob o foco dos holofotes pela primeira vez desde que ela anunciou em março que havia se tornado cidadã alemã.
A autora, que agora divide seu tempo principalmente entre Paris, onde tem apartamento, e a Alemanha, é casada com o pianista concertista Friedrich Hoericke desde 1985. Ela assumiu cidadania alemã depois de anos de críticas amargas da maior parte do meio acadêmico norte-americano, que acusa a metodologia dela de ser anticientífica porque se baseia em questionários respondidos por pessoas anônimas.
Esses críticos podem estar afiando as facas novamente, particularmente porque Hite disse que seu novo livro não é baseado primariamente em novas pesquisas, mas na experiência cumulativa da totalidade do trabalho dela.
As teorias dela indubitavelmente levantam questões interessantes. Se as mulheres estão acordando apenas agora para a possibilidade de um terceiro tipo de amizade, porque isso demorou tanto?
Por que, décadas depois da revolução sexual ter transformado as relações delas com os homens, muitas mulheres ainda não reavaliaram o modo como elas se relacionam com outros membros de seu gênero?
Talvez não seja surpreendente para alguém que chocou o mundo com pesquisas que mostraram que os muitos homens eram completamente ignorantes quanto ao orgasmo feminino achar que os órgãos sexuais têm um papel importante nesse distanciamento.
Ela argumenta que muitas meninas nunca chegam a ter contato claro com a sexualidade das próprias mães, parcialmente porque os órgãos sexuais femininos não são expostos, como o dos homens. Tentativas das meninas de explorá-los são reprimidas.
‘‘Você sabe que os bebês enfiam o dedo no seu nariz, não? Bem, os bebês provavelmente põe seus dedos entre as pernas das mães também. Mas logo eles escutam, com voz firme: ‘isso é algo que você não deve fazer’.’’
Assim, de acordo com Hite, um senso de mistério encobre as outras mulheres. ‘‘As meninas sentem muito cedo que tocar outra mulher de qualquer modo que se relaciona às partes sexuais do corpo é proibido’’, afirma.
Hite espera que a sociedade como um todo seja mais tolerante com as relações mais próximas entre as mulheres. Ela gostaria também de ver as mulheres construindo redes e estruturas sociais que servissem melhor a elas mesmas, assim como os homens se reuniram nos tradicionais clubes esportivos ou partidos políticos.
Mães conservadoras serão convidadas a ouvir, de qualquer modo, que Hite não está defendendo que elas deixem que as filhas façam o que quiserem com os corpos delas.
‘‘Eu não sei o que cada mãe deve fazer’’, admite, preferindo aderir ao consenso geral de que a mãe não deve ‘‘ser uma porta fechada.’’

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