'Uma Confraria de Tolos' ridiculariza a banalidade moderna
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
André Barcinski <br>Folhapress 
São Paulo - O escritor norte-americano John Kennedy Toole não viveu para ver o sucesso de ''Uma Confraria de Tolos''. Incapaz de conseguir uma editora para publicar o livro e sofrendo de graves crises de depressão, Toole cometeu suicídio em 1969, aos 31 anos.
Sua mãe, Thelma, encontrou uma cópia do manuscrito entre os pertences do filho e brigou por muitos anos para conseguir uma editora. ''Uma Confraria de Tolos'' foi finalmente publicado nos Estados Unidos em 1980. No ano seguinte, Toole ganhou um Pulitzer póstumo.
Desde então, o livro tornou-se um clássico ''cult'' da literatura satírica norte-americana, frequentemente comparado a obras de Mark Twain.
A prosa ácida de Toole ganhou admiradores como o grande escritor chileno Roberto BolaÀo, que citava o livro entre seus favoritos.
''Uma Confraria de Tolos'' começa com uma frase de Jonathan Swift, um dos autores prediletos de Toole: ''Quando surge no mundo um verdadeiro gênio, pode-se identificá-lo por este sinal: contra ele se juntam em uma aliança todos os tolos''.
O personagem principal do livro, Ignatius J. Reilly, é um trintão obeso, glutão, flatulento e mal-humorado, que mora com a mãe e vive amaldiçoando o mundo moderno.
Ignatius leva a frase de Swift a sério: ele é um anti-herói, deslocado do mundo e nascido na época errada, que se considera sempre perseguido por uma cambada de idiotas.
Não é à toa que muitos críticos compararam Ignatius a Dom Quixote. Os dois personagens vivem sempre em conflito com o mundo ''real''.
Comicidade
''Uma Confraria de Tolos'' se passa em New Orleans, nos EUA, nos anos 1960. É notável como Toole criou uma galeria de personagens cômicos inesquecíveis, mas que nunca se tornam folclóricos ou caricaturais.
Seus encontros com ''strippers'', policiais incompetentes e idosos reacionários são engraçadíssimos.
O personagem de Ignatius foi supostamente inspirado por um professor de Toole, mas tem muito de autobiográfico. Toole também sofreu com uma mãe dominadora e tinha uma visão ácida e pessimista do mundo.
''Uma Confraria de Tolos'' pode ser visto como uma metáfora ao deslocamento que muitos jovens norte-americanos vivenciavam nos anos 1960, período de conflitos sociais intensos no país.
Ignatius é um cavaleiro solitário lutando contra um mundo que ele não entende e ao qual ele não acredita pertencer.
É curioso pensar na recepção que o livro poderia ter tido se houvesse sido lançado nos anos 1960. Será que Ignatius se tornaria, para a década de 60, o que o personagem Holden Caulfield de Salinger foi para a de 50?
Serviço:
- Uma Confraria de Tolos
Autor - John Kennedy Toole
Editora - BestBolso
Tradução - Alice Xavier
Páginas - 432
Quanto - R$ 19,90


