Uma conexão festiva
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 1998
Ranulfo Pedreiro 
No início da década de 80 o movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulista, encabeçado pelos paranaenses Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, chegava ao Teatro Lira Paulistana, em São Paulo, como uma novidade incendiária e não-comercial. Ao mesmo tempo, a cidade vivia um boom da música instrumental, reunindo intérpretes e compositores que mesclavam a improvisação do jazz com algumas características da música brasileira.
Neste grupo estava o saxofonista Mané Silveira, que desde então vem trabalhando para levar esta mistura instrumental ao público interessado. Entre idas e vindas, driblando esquemas comerciais, Silveira associou-se ao pianista Benjamin Taubkin e ao saxofonista Teco Cardoso para montar o Núcleo Contemporâneo/Projeto Memória Brasileira, um selo que reúne clássicos da música nacional e novidades que fogem aos padrões do mercado.
O selo já existe há quase dois anos e conta com 12 títulos, entre eles o último disco de Mané Silveira, Bonsai Machine, lançado no ano passado, além de Meu Brasil, de Teco Cardoso - que ganhou o Prêmio Sharp este ano -; A Terra e o Espaço Aberto, de Benjamin Taubkin; Porto dos Casais, do baterista Nenê; Ninhal, de Léa Freire; Espiral do Tempo, do grupo Anima; Memória do Piano Brasileiro - Volume 1; Viva Garoto - Gravações Originais e Ná, de Ná Ozetti.
Entre as novidades que chegarão ao mercado estão Gigante Negão, de Arrigo Barnabé. O selo do Núcleo Contemporâneo também lançou o álbum da série Violeiros do Brasil, que reuniu grandes nomes da música caipira; além de Violões, que traz desde André Geraissati até Canhoto da Paraíba.
O embrião do próximo projeto do selo está em gestação durante o 18º Festival de Música de Londrina, onde Mané Silveira dá aulas de saxofone e participa da Oficina de Jazz. Na Oficina, Silveira encontrou amigos como o baterista Sérgio Reze e o pianista Rafael Santos. Contando ainda com Djalma Lima na guitarra e Ricardo Matsuda no baixo, o grupo tende a continuar trabalhando após o evento.
Na verdade, neste Festival está nascendo um conjunto com um trabalho que vai ficar, nós não pretendemos nos dispersar depois, comenta Silveira. O grupo já cogita a gravação de um CD com músicas de Silveira, Rafael Santos e Ricardo Matsuda, além de possíveis releituras de composições da MPB. O álbum deve sair no ano que vem pelo Núcleo Contemporâneo. O quinteto foi batizado, por brincadeira, de Londrina Connection, até surgir o nome definitivo.
O resultado do encontro pode ser apreciado hoje, durante a apresentação da Oficina de Jazz no Cine-Teatro Ouro Verde, a partir das 20h30. Muitos de nós já tocávamos juntos, mas esta é a primeira vez que nos apresentamos com esta formação. Nós gostamos da experiência proporcionada durante o Festival. No Ouro Verde, vamos apresentar composições que serão a base do novo CD, acrescenta Silveira.
O estilo do grupo segue características que o saxofonista convencionou chamar de MPBI - Música Popular Brasileira Instrumental. O que fazemos hoje é uma fusão do espírito jazzista com nossas heranças musicais. Dessa mistura surgiu uma música instrumental brasileira com características próprias. Não gosto de rótulos, mas neste caso está sendo útil, revela.
Mané Silveira se considera um militante da música instrumental que procura espaços sem resvalar nos esquemas comerciais: Desde que comecei tenho essa preocupação. O próprio Núcleo Contemporâneo funciona como uma espécie de ONG, um pólo de resistência para manter aquilo que a gente acredita, que é a cultura e a arte.
A Oficina de Jazz e MPB se apresenta após a Oficina do Choro, que reúne feras como Joel Nascimento no bandolim, Jayme Vignoli no cavaquinho, Luís Otávio Braga no violão e Beto Cazes na percussão.
Oficinas de Jazz e Choro - A partir das 20h30 no Cine-Teatro Ouro Verde, na Rua Maranhão, 85, em Londrina. Os ingressos custam R$ 3,00. Estudantes, idosos e funcionários da UEL pagam meia entrada.


