Uma comunista inaugura o Festival de Veneza
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quinta-feira, 29 de agosto de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Veneza - Tendo como madrinha uma Sofia Loren pré-septuagenária, mas com certeza candidata vitoriosa a símbolo sexual globalizado da terceira idade, uma Gwyneth Paltrow sempre bela e distante em sua longilínea e mortal palidez, uma contentíssima Salma Hayek - atriz do filme inaugural - e uma elegante, irretocável e discreta Gong Li, presidente do júri oficial, a 59 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica foi oficialmente aberta ontem na Sala Grande do Palazzo del Cinema, localizada a 50 metros do Mar Adriático, na ilha do Lido de Veneza, com transmissão da RaiSat Cinema para toda a Europa. É a primeira edição sob o atual governo do empresário Silvio Berlusconi e sob a primeira sob o comando do novo diretor, o alemão Moritz de Hadeln, e não deixa de ser uma vitória da direita contra a histórica hegemonia cultural comunista - a rigor aqui representada invariavelmente pela ''intelligentzia'' da democracia cristã. Mas por ironia, politicamente a competição principal, ''Venezia 59'', foi inaugurada por uma produção hollywoodiana (outro paradoxo) que narra vida e obra de uma desassombrada comunista, a pintora mexicana Frida Kahlo, mulher de outro notável homem de esquerda, o muralista Diego Rivera, amante de muitos (as), entre eles o líder russo Leon Trotski, exilado comunista no México.
''Frida'' foi produzido pela companhia de Salma Hayek, Ventanarosa, e pela americana Miramax, não particularmente dedicada ao cinema político. O filme, longe de embaraçar ou constranger o atual centro do poder italiano, é um espelho de duas faces. O reflexo brilhante e portanto mais aparente é aquele de Hollywood quando faz suas ''biopics'' ou cinebiografias centradas em personalidades fortes e conflitantes. O exterior/dia é o que importa acima de tudo, enquanto o interior/noite transita pela superficialidade, de olho seletivo nas bilheterias. Quem já sabe de Frida Khalo não vai encontrar maiores novidades: respeita-se, com rigor narrativo, a cronologia da guerreira que teve pólio e mais tarde sofreu terrível acidente. Resistente, combativa, independente, politizada, adiante de seu tempo, inteligente e talentosa, o mito muito alimentado por uma espécie de ''fridamania'' nos anos 80. E quem ainda não sabe de Frida Kahlo vai encontrar uma iniciação, digamos, com a colorida profundidade de almanaque (o que seria da cultura cinematográfica de massa sem o circuito Hollywood-Capivarol...?).
De modo geral, a diretora Julie Taylor leva sua empreitada sem maiores tropeços, se for levado em conta que o roteiro final a oito mãos, a partir de biografia escrita por Hayden Ferreira, teve cerca de 12 tratamentos diversos, entre eles com Rodrigo Garcia, filho de Garcia Marquez, e com Walter Salles, por algum tempo cogitado para dirigir o filme. Entre as virtudes concretas está o tratamento visual obtido por Rodrigo Prieto, que já havia brilhado em ''Amores Perros''. Somente um mexicano poderia sentir a textura pictórica dos quadros de Frida, a temperatura quente das cores. Um dos achados é a ''surrealização'' de certos planos, uma recriação de quadros famosos com a intervenção sobreposta da cena recriada com atores e cenografia, para o contexto da narrativa. Um belo e original efeito, infelizmente explorado com excesso de parcimônia.
Em boa medida, ''Frida'' é um filme não apenas com, mas de Salma Hayek. Desde sempre apaixonada pelo ícone pré-feminista, a atriz, nos anos 90 cooptada por Hollywood como nova tentativa de mito sexual latino, fez o que foi preciso para garantir o direito de levar à tela a história de sua heroína. Além de investir recursos próprios, bateu de frente contra dois pesos-pesados também de olho na saga de Frida: as encrenqueiras Madonna e Jennifer Lopez. O maior elogio que se pode fazer à pequena e determinada Salma é que parece muito pouco provável que vá estar melhor em qualquer outro papel futuro. Seu entusiasmo ontem à tarde durante a coletiva era a melhor prova disso. Por outro lado, outro título bem cabível teria sido ''Frida e Diego'', tal a importância, influência e também dependência que o muralista teve em relação a ela. Alfred Molina confere ao personagem dimensão e dignidade requeridas.
Dois longas abriram a segunda seção competitiva, ''Controcorrente'', principal desafio físico e mental para o já sobrecarregado dia-a-dia festivaleiro. Co-produzido por Portugal, Cuba, Espanha e França, e dirigido pela chilena Valeria Sarmiento, ''Rosa la China'' é um melodrama ambientado na Havana dos anos 50. Impregnado da religiosidade afro tão comum a cubanos e brasileiros, o argumento do filme trabalha com inseparáveis elementos da cultura popular, como as novelas de rádio, a dança, a ''santeria'' ou candomblé. O resultado é no mínimo curioso e estimulante, predominando sobre o roteiro alguns determinantes valores de produção como a trilha musical de Paquito D'Rivera e direção de arte de Isabel Branco.
O segundo longa é ''Lílian 4 Ever'': retrato implacável, seco, quase semidocumental das ruínas em que se transformou o império soviético. No olhar devastador do diretor sueco Lukas Moodysson, nem futuro ou Deus existem para a nova geração de deserdados russos, só restando a morte para escapar da miséria e da degradação. O garoto Volodia e a adolescente Lílian são as vítimas-símbolo do novo ordenamento político-econômico-social, a nova realidade globalizada que não vê solução material para os falidos e premia com o tédio e a náusea os abastados de primeiro mundo.


