A grande revelação desta co-produção mexicano-alemã ''Luz Silenciosa'', a partir de hoje no circuito local (confira a programação de cinema na página 2), não é o talentoso diretor mexicano Carlos Reygadas, embora seja o primeiro de seus três filmes a estrear em Londrina. Importa pouco que seja também o primeiro filme da história do cinema falado em uma espécie de alemão antigo filiado ao holandês, somente utilizado em pequenas comunidades menonitas espalhadas pela Alemanha, Estados Unidos, México, Paraguai, Belize e Brasil.
O que interessa para uma útil aproximação a este belo filme é deixar-se levar pela narrativa ascética que ocorre dentro de estritos, rígidos e raros códigos de conduta e costumes religiosos dos menonitas. Neste ambiente e neste ritmo de vida, Reygadas assumiu e superou o risco da intromissão que parecia muito mais ao alcance do documentário do que do cinema de ficção. Ele se aventurou não apenas a descrever esta comunidade a partir de um punhado de personagens-chave como também a construir com eles uma fascinante alegoria sobre o adultério e suas trágicas consequências, apresentando ainda, de maneira temerária, o milagre de uma expiação espiritual.
Depois de um longo, contemplativo prólogo de murmúrios e silêncios que registra em tempo real o amanhecer - o epílogo é o pôr-do-sol e a noite que volta a fechar o ciclo - o argumento se abre para o ciclo cotidiano da família de Johan (Cornélio Wall), homem angustiado por crise existencial. Em cenas de contrita sobriedade, o espectador se inteira do segredo deste pai de família que inesperadamente rompe em pranto. Distanciado da esposa Esther (Miriam Toewes), Johan se apaixonou pela compreensiva Marianne (Maria Pankratz), e agora conta ao pai seu dilema moral, para ele sem solução.
Ao observar atentamente as lidas de trabalho dos menonitas e as digressões dramáticas, e deixando em suspenso as decisões que mudarão a vida dos personagens, Carlos Reygadas desperta no espectador uma emoção raras vezes calibrada no cinema mexicano, por tradição um cinema que em toda sua existência celebrou e privilegiou o melodrama explícito. Quando afinal o desenlace irrompe - uma rodovia varrida pela chuva, os soluços de uma mulher sofrida, a confusão de sua rival, o desespero do marido frente ao fato irreparável -, o cinema de Reygadas alcança inequívoca força dramática.
Os iniciados vão encontrar um claro tributo ao cinema espiritualista do dinamarquês Carl Dreyer, especialmente uma referência explícita ao filme ''A Palavra'' (Ordet), de 1955. A estética impecável de Reygadas está igualmente a serviço de uma história, o que faz de ''Luz Silenciosa'' um filme plasticamente belíssimo, comovedor e inteligente. (C.E.L.J.)

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