Uma coletânea de tipos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de dezembro de 2002
Célia Musilli<br> Reportagem 
O inconformismo fez com que o jornalista Luiz Taques elegesse as mazelas sociais como temas de suas reportagens, ao longo de 20 anos de profissão. Por conta disso, enfocou situações revoltantes como a tortura policial em Campo Grande - que lhe deu um prêmio da Federação Nacional dos Jornalistas - Fenaj - em 1990, e denunciou o trabalho escravo nas minas de carvão do Mato Grosso do Sul - o que também lhe valeu o Prêmio Wladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 1991. As duas reportagens foram publicadas na Folha de Londrina, onde ele trabalhou nos anos 90.
Atrás das mazelas, Taques também encontrou perfis inusitados, personagens que não caberiam na crueza dos textos jornalísticos, mas que serviram de inspiração para os contos reunidos no livro ''O casamento vai acabar com o poeta'', recém-publicado pela editora Casa Amarela.
Em tom divertido, ele apresenta ao leitor tipos como o Velho do Rio, um pescador isolado do mundo que, aos 78 anos, não tem medo da morte, apenas da impotência, depois de ter doze filhos com a mulher de toda a vida. As histórias do velho passam pela perspicácia de comparar a voracidade dos políticos com a das piranhas, ele também se preocupa com a vida da comunidade, a água salobre, a escola das crianças e lamenta que ninguém encha páginas de jornal com assuntos tão importantes.
Já as agruras femininas dão a Taques a oportunidade de enviezar o olhar de cronista para outro universo, mostrando com sensibilidade as preocupações da ''Mulher Trabalhadeira'', poema que quebra a sequência de contos do livro e já foi adaptado para o teatro. A personagem fala de seus cinquenta anos de casada, da submissão às regras, dos seiscentos meses de trabalho sem direito à aposentadoria, do vaivém dentro de casa que equivaleria a cinquenta viagens à pé até à capital. Ela também aborda os desencantos e confessa que ser chamada de ''mulher trabalhadeira'', no fim das contas, é ''um elogio besta''. Sem errar o tom, o autor se apropria da alma feminina no que ela tem de mais secreto e doído.
O texto que dá título ao livro, ''O casamento vai acabar com o poeta'', é o resgate de uma conversa com um tio para quem ''casamento e poesia são coisas inúteis'' que não podem andar juntas. Ao completar cinquenta anos de casado, o personagem vai à forra por ter vencido a praga ao ocupar o cargo de presidente de um clube de poetas que conta com mais de duzentos sócios.
''Raposo Felpudo'', um dos textos mais longos do livro, ocupa nove páginas e critica um dono de jornal corrupto e todo-poderoso. Dedicado ao poeta matogrossense Manoel de Barros, amigo pessoal de Taques, o conto resgata histórias de Raposo Felpudo através de tia Rosa Soledade, que tinha olhos de repórter e adorava viajar de trem. Assim, de tema em tema, o autor vai mudando de estação, recolhendo aqui e ali os passageiros que não caberiam nos textos jornalísticos, cada vez mais distanciados do lirismo. No dia-a-dia é preciso sensibilidade extra para não perder de vista o conteúdo humano, ocupando-se demasiadamente com fatos e números. A imparcialidade às vezes cheira à impessoalidade. Mas Luiz Taques é jornalista de outra escola e encontrou um jeito de registrar inconformismo sem perder a força da poesia. ''O casamento vai acabar com o poeta'' tem capa ilustrada pelo londrinense Edvaldo Jacinto Correia e pode ser adquirido através da editora Casa Amarela pelo telefone: (11) 3819-0130.
Serviço: ''O casamento vai acabar com o poeta'', de Luiz Taques. Editora Casa Amarela. 70 páginas. E-mail: [email protected]


