Uma coleção número um
UMA COLEÇÃO
NÚMERO UM
O publicitário Ney Alves de Souza tem uma coleção de 1,8 mil exemplares de primeiras edições ou de edições pilotos de jornais e revistas
O número zero não
circula, apenas mostra
com será a revista
Para Ney Alves,
as edições antigas
eram mais ousadas
Elisa Marilia Carneiro
Mauro Frasson
Ney alves de Souza coleciona as primeiras edições há 30 anos e tem tudo catalogado em computadorA mania de guardar coisas fez com que o publicitário Ney Alves de Souza iniciasse uma coleção curiosa: a de edições números zero e um de revistas e jornais. Hoje, já são mais de 1.800 exemplares, todos catalogados no computador. Um trabalho de mais de 30 anos. A profissão de publicitário incentivou conhecer e acumular as publicações.
As primeiras edições interessaram principalmente pelo inusitado. Muitas e muitas dessas publicações ficaram nos números zero e um. Várias dessas não deram certo e estes foram os únicos números que sairam, explica.
A edição número um da revista Veja, que saiu há 30 anos, com uma capa polêmica em pleno 1968Os números zero são, em geral, as edições piloto ou experimental. A revista Placar, por exemplo, teve quatro números zero. A recente revista Você (filhote da Exame) teve oito números experimentais. As edições piloto não circulam. São feitas para apresentar o produto aos prováveis anunciantes, para mostrar a linha editorial e gráfica. São um preparo das próximas edições, explica.
Fácil acessoComo trabalhava em agências de publicidade, Ney Alves tinha acesso a esses protótipos. A número zero da revista Marie Claire, de abril de 1991, traz páginas em branco reservadas para anunciantes. Mas já tem um estudo de paginação e de modelo gráfico - a linha editorial. O número zero nunca circula. Mostra o que vai ser a revista, diz. Mesmo nessas edições saem matérias completas de moda, turismo e beleza. A reportagem principal da Marie Claire piloto trata de Lucélia Santos, sob o título A guerreira amorosa.
Capa da primeira Ele e Ela, o nu era apenas insinuadoEm 1987 saiu a número um da revista Super Interessante. A revista Exame, era encartada, em outras. Hoje, já deu três filhotes. A zero da Caras, tem as principais seções definidas. A capa veio com uma foto sem definição de imagem. A reportagem principal mostra a família do cirurgião plástico Ivo Pitangy em sua ilha em Angra dos Reis (RJ), com várias fotos da família na mais famosa ilha fluminense. Saiu também uma matéria sobre a apresentadora de telejornais Valéria Monteiro conquista Manhatan. Outra reportagem mostra a atriz Ingra Liberato e Jaime Monjardim.
CarasA número um da Caras tem como personagens principais o sócio majoritário da Rede Globo, Roberto Marinho e sua mulher Lili de Carvalho. Além desses, traz várias fotografias de Jaqueline Onassis.
Uma curiosidade que Ney Alves mostra é a revista religiosa Bom Pastor, de 1988, que numa mesma edição traz os números um e dois. Raridades como as primeiras fotonovelas são guardadas com cuidado pelo colecionador. A fotonovela Amar é Compreender tem como atores Regina Duarte e Claudio Marzo. Traz também uma matéria com Juca de Oliveira com o título: Tive cinco noivas. Outra, mostra uma declaração da cantora da bossa-nova e jovem guarda Vanusa: O casamento não dá felicidade a ninguém.
O Karmann-Ghia foi o carro da primeira capa de Quatro RodasUma revista que também durou muito pouco foi a Jóia, da editora Bloch. A número zero é de 30 de dezembro de 1957. Na capa a atriz Tonia Carrero. A revista- guia Bondinho (1970) fez sucesso na época. Era distribuida pela rede de supermercados Pão de Açucar, do Rio de Janeiro. A revista Lady de outubro de 1956, traz matéria sobre Dinah Silveira de Queiroz.
Um jornal, classificado como pretensioso pelo publicitário é um jornal-revista de fim-de-semana de 1971, chamado Domingo. Era uma edição muito grande para a época. Um projeto arrojado, da Bloch. Era feito em papel revista em formato standart de jornal.
DesfileA primeira Desfile saiu em forma de jornal, em 1963. Na capa, a atriz Maria Della Costa, A manchete: Governo luta contra débito de um trilhão. A miss universo Yeda Vargas divide espaço na revista com o presidente americano assassinado, John Kennedy, no título da matéria John Kennedy apoiou pressão popular. A revista traz reportagem sobre massacre de índios do Xingu. A história de Noel Nutels e dos índios brasileiros a quem dedicou sua vida, como foi contada pelo próprio pajé branco ao repórter Antônio Carlos de Carvalho, da equipe de Desfile. A matéria da seção de turismo trata das belezas da região amazônica, com uma foto lindíssima de Belém do Pará.
Pelé, às vésperas da Copa de 66, na Inglaterra, foi capa da primeira RealidadeUma revista de umbanda, não traz nem a data. Às vezes é preciso ler o material inteiro para encontrar alguma referência de data, diz. O Pingo de Jornal, da Jips publicidade do Paraná, veio num formato micro-jornal, num tamanho de revista em quadrinhos. Tem também o Jornal Dubolso, o informativo Obaobático, da menor editora do país. Foram coisas que não sairam do número zero, observa.
A revista do Colorado Esporte Clube, de 1983, chamava-se O Boquinha. O número um, de 1985, do Jornal do Jornalista, traz a manchete Tancredo briga pela aliança, uma reportagem com a cantora Elis Regina e uma carta a Ivan Lins.
Dela para elaCom um certo cuidado, o publicitário mostra a primeira edição do Jornal em Revista feito por uma colunista social curitibana para ela mesma, com fotos ousadas até na capa.
O orgulho do publicitário é o Canto do Sino, mimeografado em quatro cores. Com noticiários, literatura, gastronomia, esporte e cultura. No expediente quase que só o nome Ney Alves de Souza: redator, editor, datilógrafo, repórter e desenhista.
As principais diferenças entre as edições antigas, segundo o colecionador, são que eram mais ousadas. Hoje, as publicações são mais dirigidas, para um público específico. Há algum tempo as revistas e jornais não definiam seu público com tanto cuidado, observa Ney Alves. Os textos não são mais tão trabalhados, em compensação o projeto gráfico é bem mais elaborado. Os temas são os mesmos de hoje: humor, moda turismo, futebol, coluna social, curiosidades.
O problema do jornal foi e será a vida inteira a distribuição, analisa. Não adianta fazer um jornal super bem feito e não ter uma boa distribuição.





