Uma classe na corda bamba
Rodrigo Teixeira
TV Press
O futuro da teledramaturgia do Brasil é desanimador. O que se desenha hoje é que, no ano 2000, a Globo deve ser a única emissora a produzir novelas no País. Seguindo o exemplo do SBT, que vem confirmando a tendência de colocar novelas mexicanas no ar, a Record também já anuncia uma produção da Televisa para substituir Tiro & Queda. Para piorar, a emissora de Roberto Marinho não vai produzir mais o seriado Mulher e programas como Você Decide e Malhação podem sair da grade no próximo ano. A possibilidade de esvaziar a dramaturgia global aumentou mais ainda, já que a emissora vai precisar arranjar espaço para novos contratados, como Jô Soares, Serginho Groisman e Luciano Huck. Além disso, atualmente a Globo utiliza ao máximo o elenco fixo e faz os atores emendarem vários trabalhos.
Apesar de ter extinto a produção de novelas desde Meu Pé de Laranja Lima, em 98, a Band é a única emissora que vai manter o investimento em dramaturgia. Só que no formato de comédias de situação, como Santo de Casa... e Guerra dos Pintos. Segundo o diretor Del Rangel, a Band vai produzir em São Paulo mais duas sitcoms no ano 2000, mas não tem previsão de voltar a investir em novelas. As sitcoms vão ser a alternativa de trabalho para os atores, empolga-se Del. A Record também deve apostar em sitcoms. Mas não é nada certo. De concreto mesmo, só a substituição em fevereiro de Tiro & Queda, produzida pela JPO, pela mexicana Olhar de Mulher. A tática da Record vai deixar desempregados pelo menos 200 profissionais envolvidos com Tiro e Queda. Vamos investir em sitcoms. Mas não temos data de estréia, tergiversa Marcus Aragão, diretor artístico da Record.
Para o autor Yves Dumont, que adaptou a história inglesa Tiro & Queda, o fato da Record deixar a produção de novelas pode ter consequências trágicas. O autor garante que já tem uma sinopse pronta para oferecer para a Record e que vai tentar convencer a emissora a não acabar com o trabalho desenvolvido com a JPO. Antes de Tiro & Queda, Record e JPO já haviam produzido Estrela de Fogo e Louca Paixão. A Record precisa manter a produção de novelas, nem que seja com outra produtora. O importante é empregar brasileiros, brada Yves. O próprio diretor de programação do SBT, Eduardo Lafon, garante que a emissora exibe novelas mexicanas porque são baratas. Enquanto Pérola Negra custou R$ 30 mil por capítulo e dava cinco pontos de média, A Usurpadora, que teve uma média de 20 pontos, saiu por R$ 5 mil o capítulo. Mas é inegável que as novelas brasileiras atraem mais anunciantes. Apesar disso, não sabemos quando voltaremos a produzir novelas, afirma Lafon.
Com a produção de novelas em queda, só resta aos atores tentarem garantir o ganha-pão de outro jeito. Taumaturgo Ferreira, que não teve nenhum convite para trabalhar após fazer o Átila de Andando nas Nuvens, vai investir em suas habilidades pessoais. Vou tentar vender quadros e fazer shows. O trabalho na tevê está escasso, reclama Taumaturgo. Sem trabalhar na tevê desde Pecado Capital, Clara Garcia confessa que já começou a lidar com outras atividades. Estou vendendo produtos de Bali. Não dá para ficar parada, frisa.
Até mesmo Beto Silveira, professor de vários atores globais, como Ana Paula Arósio, Fábio Assunção e Humberto Martins, está ansioso. Ele sempre forneceu atores de sua escola em São Paulo para novelas. Em Tiro & Queda, da Record, por exemplo, já atuaram quase 20 alunos formados por ele. O mercado nunca esteve tão em baixa. Não sei onde isso vai parar com tantas novelas mexicanas, questiona Beto. Com um nome consolidado como ator, Paulo Betti, o Higino de Força de Um Desejo, garante que a produção de novelas vai voltar assim que os programas de auditório e os dramas mexicanos enjoarem o espectador. Ninguém vai aguentar assistir só receita de bolo e novela mexicana. Por mais idiota que a pessoa seja, vocifera o ator. Menos experiente, a novata Thaís Fersoza, que está fora de Malhação, já decidiu aprender outro ofício. Quero fazer uma faculdade. Não dá para depender apenas da tevê, pondera a atriz de 15 anos.Emissoras de TV investem cada vez menos na produção de novelas deixando os atores sem opção de trabalho
Afonso Carlos/Carta Z NotíciasCarta Z NotíciasTaumaturgo Ferreira: investindo na pintura para ganhar dinheiroReproduçãoPaulo Betti diz que as novelas mexicanas vão enjoar o telespectador





