A cidade de Londrina e o Norte do Paraná são cenários constantes nos contos e romances do londrinense Domingos Pellegrini. A terra vermelha e sua gente marcam sua literatura desde seu primeiro livro, ''O Homem Vermelho'', publicado em 1977 pela Civilização Brasileira.
Nos contos de ''O Homem Vermelho'' - reeditados pela Imprensa Oficial do Paraná em 2000 com o título ''Pensão Alto Paraná'' -, caminhoneiros, peões, comerciantes, violeiros e agricultores contam suas histórias com os dois pés fincados no barro, construindo uma cidade em constante mutação.
Esse cenário peculiar ganhou proporções definitivas no primeiro romance de Pellegrini, ''Terra Vermelha'', lançado em 1998 pela Editora Moderna. O livro narra, a partir da vida de um casal de pioneiros, a história da colonização no Norte do Paraná e o florescimento de Londrina. Da primeira clareira na mata, passando pela ascensão e queda da cafeicultura, até dos dias de hoje.
Nascido em 1949, Domingos fez de sua literatura uma fusão de realidade com ficção. Em sua visão, existem várias ''Londrinas'' que se tornaram matéria prima de sua escritura. Uma cidade que, nas mais variadas épocas, conviveu com a tradição e a vanguarda. A seguir Pellegrini fala sobre Londrina, sua cultura e sua história. A cidade na visão de seu mais importante escritor.

Em sua literatura, desde seu primeiro livro (''O Homem Vermelho'') até seu mais recente romance (''O Caso da Chácara Chão''), você fez de Londrina e do Norte do Paraná um cenário constante. Por que essa escolha?
Acho que foi pela própria riqueza da história dessa região. Nossas principais riquezas são a terra-vermelha, o clima intertropical e a colonização multi-racial. Esses fatores, integrados, formaram uma civilização muito peculiar, vigorosa e surpreendente. Como escritor, tive a graça de também ser jornalista desde os 18 anos e terem me pago para fazer o que mais gosto, que é conhecer a realidade e escrever sobre ela. Além disso, logo entendi que o nascimento de uma pessoa num ponto do planeta, e não nos outros milhões de pontos possíveis, é um desígnio com tudo que isso possa ter de sortilégio e de malefício. A globalização apenas revela que o mundo não é uma aldeia, como se pensava há duas décadas: o mundo é a soma das aldeias. Também sempre pratiquei uma arte realista, e a arte realista precisa estar voltada para a realidade. Querubins, quimeras e utopias nunca me atraíram, mas sim o presente, a vida presente, os homens presentes, como disse Drummond.

Como você classificaria Londrina enquanto uma cidade do interior que teve um acelerado desenvolvimento?
O que há de constante na História de Londrina é sua mutação, sua constante mudança, ao superar crises econômicas e sociais se reinventando: de povoado que quase sucumbiu devido à febre amarela e à revolução de 32; de cidadezinha de madeira que explodiu com o café; de cidade de alvenaria que continuou explodindo mas também sofreu os baques das geadas; de metrópole de concreto que sofreu suas crises e superou, ganhando novas identidades. Foi ''boca do sertão'', foi cidade-jardim, foi Capital do Café, foi pólo agronômico na diversificação agrícola dos anos 70. Hoje é também centro comercial e cidade universitária. Muitas cidades que começaram na mesma década, ou antes, não tiveram esses desdobramentos. A localização de Londrina, e também por ter sido a primeira cidade da colonização, favoreceram esse desempenho. Mas com isso a cidade também atraiu êxodo rural, que trouxe problemas sociais. A cidade-jardim idealizada pelos ingleses existiu só nos anos 40... Mas pode ressurgir, na forma do centro histórico revitalizado, civilizado, sem poluição sonora e visual, com comércio mais evoluído - porque há comerciantes que insistem em continuar na década de 50, gritando na porta da loja.

Como você ''lê'' a Londrina de hoje em relação ao seu passado histórico? Estaria acontecendo atualmente um crescimento cultural amadurecido ou trata-se apenas de uma fase passageira?
''Londrina povoado'' acho que era proporcionalmente mais culta que a ''Londrina metrópole''. Há várias Londrinas. Na ''Londrina Patrimônio Três Bocas'', o povoado, havia algumas centenas, depois alguns milhares de pessoas que liam, formavam grupos de estudos, aguardavam livros pelo trem, escreviam diários e muita correspondência. A ''Londrina Capital do Café'' aparentemente tinha uma vida cultural muito mais rica que a de hoje, só pelo fato de receber tantos cantores e músicos, mas geralmente eles ficavam confinados aos cabarés. Nas primeiras décadas, não havia teatro, só cinema e rádio, e os alto-falantes também foram importantes na década de 50, quando a Praça Floriano Peixoto e a Avenida Paraná tinham um grande e intenso ''footing'', com o serviço de alto-falantes transmitindo mensagens, dedicando músicas, dando resultados esportivos inclusive regionais, através de olheiros que iam ver as partidas e voltavam com os resultados anotados em guardanapos... Houve um tempo em que funcionou heroicamente o GPT (Grupo Permanente de Teatro). Os festivais universitários, na década de 70, parecem marcar o começo de uma Londrina realmente cosmopolita. Daí derivaram os festivais e, depois, as escolas de dança, de teatro - está faltando a de cinema. Mesmo na literatura, antes era eu sozinho, agora temos o Rodrigo Garcia Lopes, o Maurício Mendonça, o Mário Bortolotto, a Miriam Paglia Costa, o Carlos Ribeiro e tantos surgindo.

Londrina está prestes a vivenciar um fato inédito: ser cenário de dois filmes com referências históricas, ''Gaijin 2'' (de Tizuka Yamasaki) e ''Terra-Vermelha'' baseado em seu romance homônimo que terá direção de Ruy Guerra. Qual o significado desse fato?
Historicamente vemos que, com alguns golpes decisivos, Londrina foi mudando, se reinventando, graças a iniciativas oportunas: o começo da industrialização, com a Cacique; a diversificação agrícola; a criação da UEL e do Iapar; a criação dos grandes shoppings, estimulando o comércio a se renovar. Londrina sempre foi ousada, sabendo aproveitar as crises para criar oportunidades, e esperemos que faça isso de novo agora, transformando a produção desses dois filmes num processo embrião para uma escola de cinema. O cinema é uma indústria geradora de empregos e com múltiplos desdobramentos, inclusive na imagem pública da cidade e sua divulgação mundial, pois cinema é arte industrial de longo alcance. Assim como deve continuar implantando uma Cidade Industrial não poluente, Londrina deve criar mais pólos de serviços, como já são os de saúde e educação. A cultura também gera muito emprego, quando conjugada com o turismo, regional, nacional e internacional, estão aí a Bahia e o Nordeste mostrando isso. O prefeito Nedson e o secretário da cultura, meu primo Bernardo, têm visão estratégica e deverão tirar desses filmes o máximo de proveito duradouro para a cidade.

Até que ponto a literatura, o teatro, o cinema e a música, além de outras artes, podem contribuir para identidade de uma cidade, da urbanização de determinada região geográfica e de sua gente?
Nossa identidade cultural não está apenas em nosso sotaque e nosso modo de vestir e comer, morar e se divertir, passear e festejar. Está também e principalmente na memória. Saber de onde viemos, os percalços e desafios vencidos pelos pioneiros, os altos e os baixos da nossa civilização, as fortunas e os delírios, as riquezas e as injustiças, saber de tudo isso só pode nos dar identidade verdadeira, não a identidade apenas dos apelidos como pé-vermelho. A fotografia - Londrina é uma cidade fotografada desde o primeiro rancho na primeira clareira - e a literatura são artes próprias para o transporte até nossa História, mas o cinema é ainda mais, pois nos coloca de volta nos cenários e épocas passadas. Espero continuar contribuindo para isso com minha literatura, agradecendo a Londrina por me legar tal riqueza de cenários, gente e acontecimentos. Quem leu ''Terra Vermelha'' sabe do que estou falando: a colonização, a febre amarela, a revolução de 32, a guerra, as geadas, os incêndios, o desmantelamento da cafeicultura, o êxodo rural e suas consequências, a grande cidade inchada e trepidante de trânsito e gente, sempre criando novas alternativas. Tomar iniciativas, me parece a característica mais marcante de Londrina.

Como você descreveria as diferenças entre Londrina e a capital do Estado, Curitiba?
Respondo com um haicai: ''Já dizia Adão a Eva / se em Londrina esfria / em Curitiba neva''. São cidades de formação muito diferentes. Nossa relação umbilical sempre foi com São Paulo, nossa capital cultural. Mesmo depois da Rodovia do Café no começo dos anos 60, Curitiba era uma cidade para se dormir a meio caminho do mar - isso quando a gente raramente ia para o litoral sul. Só nas últimas décadas, graças a ter firmado uma identidade de cidade ecológica e cultural, Curitiba foi integrada ao mundo pé-vermelho, como uma espécie de extensão antiga. A grande maioria preferia ir para as praias paulistas em vez das praias do Paraná, passando antes pelo mergulho cosmopolita em São Paulo. Acho ótimo que sejam cidades bem diferentes, da geologia ao clima e suas derivações. Acharia melhor ainda se o Norte do Paraná e o Oeste formassem Estados, em respeito até às nossas diferenças, e de modo a contrabalançar o poderio político enfeixado no Congresso Nacional pelos Estados do Nordeste e do Norte. O Sul produz muito mais, tem mais população proporcionalmente ao território e é muito menos representado politicamente. Para começar, teríamos nove senadores em vez de três. Talvez seja sonho meu, mas ainda não é proibido sonhar, é?

A cidade, nos últimos anos, viveu um conturbado período político com a cassação do prefeito e várias denúncias de corrupção. Como você avalia a Londrina desse período, bem como sua atual situação, dentro do processo histórico da cidade?
Como uma tempestade que passou. Só lamento que a Justiça brasileira ainda seja tão lenta, injusta já na própria lentidão, pois um dos promotores declarou que o processo todo Ama-Comurb levará dez anos para ser deslindado. Parece prêmio para os criminosos. A legislação, a mentalidade, as posturas, tudo da Justiça e dos outros dois poderes públicos, o Legislativo e o Executivo, deve ser mudado. Já fui revolucionário, hoje não acredito em mudanças à força, mas o que acontece hoje é que os poderes públicos tornaram-se entraves para o desenvolvimento, a prosperidade e a justiça social. Temos ainda estruturas públicas profundamente injustas, elitistas, lentas, caras, corporativistas e corrompidas, ao mesmo tempo em que temos elites ainda também irresponsáveis, e um povo trabalhador muito humilde, omisso e indiferente, quando não corrupto também. Escrevo justamente para contribuir para a mudança desse estado de coisas. O ser humano é condenado ao progresso, dá para melhorar.

Londrina é uma cidade que tem orgulho de seu passado e procura cultuá-lo, ou não gosta de seu passado e procura apagá-lo?
Nunca se deve apagar o passado, pois o que mais incomoda é o que mais tem a ensinar. Em vez de cultuar a história, melhor estudar, aprender com ela. E retirar dela temas, motivos, lições, símbolos, que possam ser úteis para a gente aprender, se motivar, comemorar, adotar. Sonho com um tempo em que a marca pé-vermelho será estampada em todo produto do Norte do Paraná, como sinal de qualidade internacional, como a folha do Canadá. Neste tempo nossas cascatas serão de água clara, sem qualquer lama, pois estaremos livres da erosão agrícola e alguns hotéis turísticos até filtrarão seus riachos. Teremos artesanato de cara própria, com materiais da terra, e até uma culinária típica. Gente de todo o mundo virá conhecer o mundo pé-vermelho, do palmito e do café à tecnologia e a arte. Seremos uma sociedade mais rica, mais justa e mais feliz. No meu sonho tudo isso está bem claro. Quando for verdade, já terei morrido, mas talvez alguém leia esta entrevista e diga vejam, lá no começo do milênio havia um sonhador que sonhou direitinho.

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