Unir jornalismo, literatura e a história de Londrina era o desafio do dramaturgo Maurício Arruda Mendonça quando, em 2007, começou a escrever contos para o jornal Folha Norte. Dessa experiência nasceram dezenas de textos com histórias populares que corriam de boca em boca pelas esquinas da cidade. Contos que compunham uma breve história do cotidiano dos londrinenses das décadas passadas.

Uma seleção dessas histórias acaba de ser transformado em livro. ''Londrinenses'', que reúne 15 contos, será lançado hoje, às 20 horas, na Biblioteca Municipal de Londrina. Patrocinado pela Promic e publicado pela editora E-lectra & Kan em formato de bolso, o livro será distribuído aos alunos da rede pública de ensino da cidade para ser utilizado como suporte paradidático.

''Londrinenses'' traz histórias populares entre os antigos habitantes da cidade e completamente desconhecidas das novas gerações. Qual era sua intenção em resgatar essas histórias?

A idéia era escrever com linguagem acessível para agradar os leitores mais velhos e principalmente fazer os jovens se interessarem pela história da cidade. Aí começou um processo de garimpar histórias que a gente tinha ouvido falar. Também pesquisei em jornais e livros. Realmente o objetivo era falar dos dramas de homens e mulheres comuns que não são os pioneiros, mas também de alguma forma são nossos heróis culturais.

Quando o assunto é a história de Londrina o foco principal sempre recai sobre os pioneiros ilustres. Nos contos de ''Londrinenses'' não há pioneiros ilustres. Você considera que chegou a hora da história da cidade também ser contada por pessoas comuns?

É justamente essa a mensagem de ''Londrinenses'', os heróis e heroínas são pessoas comuns, com vidas simples, que não almejaram jamais ter seus nomes anotados em livros de história.

O livro pode ser considerado um retrato, fazendo uso da literatura e do jornalismo, da história não oficial da cidade?

Acho que é mais um retrato das histórias que muita gente conhece, mas não ouvem mais falar por aí, nem são passadas para as novas gerações. Isso é um perigo, pois a memória tende a desaparecer junto com a identidade de uma sociedade. Nesse sentido meu livro se coloca como uma pequena contribuição literária ao resgate da memória dos londrinenses.

O que há de fatos reais e de ficção em ''Londrinenses''?

De real tem a cidade com suas ruas, seus lugares antigos, seus personagens típicos como os picaretas, os engenheiros da Companhia de Terras, as donas de pensão, a vida noturna dos anos 50, muita coisa. De ficção, a forma de contar as histórias, de investigar a psicologia dos personagens imersos em seus dramas. Obviamente que algumas histórias são totalmente verídicas, mas as pessoas que me contaram pediram sigilo.

Que diferenças você percebe entre a Londrina de décadas atrás representada nos contos do livro e a cidade dos dias atuais?

Posso ilustrar a resposta com um fato recente. Em ''Londrinenses'' há um conto chamado ''O Maníaco das Calcinhas'' no qual eu escrevo sobre os atentados ao pudor cometidos nos anos 70 por um cidadão perturbado que cortava pedaços das calcinhas de suas vítimas. Na manhã da última segunda-feira, eu estava ouvindo rádio quando ouço o repórter noticiar que um criminoso invadiu um consultório munido de uma faca e obrigou uma senhorita a tirar a roupa, e roubou dela justamente a calcinha. Na saída o bandido ainda jurou que voltaria para levar a calcinha da outra moça que lá estava. Como se pode ver, quando a gente fala sobre comportamentos humanos, como é caso de ''Londrinenses'', as diferença entre as épocas parecem se dissolver.

O título ''Londrinenses'' é alguma alusão ao livro de contos ''Dublinenses'' do escritor irlandês James Joyce?

Sim. Da mesma forma que Joyce quis falar das pessoas que moravam na sua distante Dublin e não tinham o mesmo charme dos ''parisienses'' ou dos ''nova-iorquinos'', eu queria homenagear as pessoas comuns da minha cidade, os ''londrinenses'', com suas histórias surpreendentes, com um imaginário próprio e que é tão rico e diferente dos ''paulistanos'', ''cariocas'' ou ''baianos'' veiculados na mídia.

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