UMA CIDADE CERCADA DE ARTE
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de julho de 2001
Elisa Marilia CarneiroDe Curitiba 
A Curitiba de Guido Viaro, Miguel Bakun, De Bona, Artur Nísio e Poty Lazzarotto multiplicou-se inúmeras vezes e hoje é considerada a quarta capital do País em número de galerias e negócios de artes plásticas. A Fundação Cultural de Curitiba contabiliza cerca de 40 galerias, fora os locais alternativos. Mesmo reconhecendo que metade da produção seja realmente de qualidade, marchands, galeristas e artistas plásticos concordam que o volume de mostras é muito grande.
Um dos motivos de tanto movimento seria a boa organização administrativa das galerias. Segundo a avaliadora de artes plásticas Neri Batista, há muita gente investindo em artes plásticas, até porque para esse tipo de negócio não é exigido nota fiscal. Atualmente ocorre um fenômeno interessante. Tem muita gente pagando médico, dentista, colégio e até loja de roupa com quadros. O que antes era privilégio de bancos, agora pulverizou-se em todas as direções. Tudo isso concorre para a agitação do mercado, reconhece.
Para o curador de artes plásticas Luiz Arthur Montes Ribeiro, tanto artistas de nível elevado quanto os que pintam comercialmente e os que ainda não atingiram uma maturidade, estão vendendo. Os estrangeiros que vivem em Curitiba compram o que há de melhor. Os turistas querem levar lembranças que identificam a terra, e vão atrás dos pinheirinhos. Há ainda os que preferem investir sem riscos e compram a arte contemporânea de artistas consagrados. O mercado reflete tudo isso, analisa.
Entre os artistas que têm uma produção comercial de qualidade destacam-se Carlos Eduardo Zimmermann, Edilson Viriato, Fernando Calderari, Maria Ivone Bergamini e Belmiro Santos, entre outros. Mas segundo os marchands, Curitiba ainda peca por não ter uma administração de turismo cultural. Os ateliês de arte, por exemplo, fecham nos fins-de-semana, quando o turista está ávido para conhecer lugares diferentes, argumenta Montes Ribeiro.
Outro problema que ocorre com frequência entre artistas e galeristas é a concorrência entre o preço das galerias e o dos ateliês. Se um artista plástico contrata uma galeria para o representar não pode vender mais barato no ateliê. E é isso o que ocorre. Em função dessa concorrência, muitas vezes desleal, galerias descredenciam artistas da cidade, conta Neri. Isso explicaria o motivo de os paranaenses venderem melhor fora do Estado. Há inclusive, galerias que insistem em não abrir espaço para os artistas da terra.
De qualquer forma, a avaliadora conta que os estrangeiros que estão vivendo em Curitiba estão comprando grande quantidade de obras de arte e enviando esses trabalhos para fora. Nem sempre o estrangeiro é tão entendido em arte quanto parece, mas tenho notícias que estão comprando e mandando para seus países de origem muita pintura paranaense.
Mais uma observação que Neri Batista faz é que os museus de Curitiba não seguem a filosofia da própria entidade e expõem obras de artistas dos mais diversos estilos e escolas. O Museu de Arte do Paraná tem exposto só contemporâneos, o Museu Alfredo Andersen, os conceituais, sem estarem de acordo com o filosofia do espaço.
Com um ateliê, galeria e escola de arte funcionando há 23 anos em Curitiba, o paulista Celso Coppio reconhece a proliferação das galerias. No entanto está ocorrendo um grande e perigoso equívoco. Muita gente está mais preocupado em expor do que em fazer escola. Isso significa que há muitos pintores mas poucos artistas, analisa.
Profissional das artes há 31 anos, Coppio segue a escola de Alfredo Volpi e de Manabu Mabe. Eles pegavam o cavalete e saiam do ateliê para pintar. Estavam sempre se esmerando, aprendendo, aperfeiçoando, antes de expor em público o trabalho. Para se ter uma idéia, já me deparei com alunos que me perguntaram quanto tempo levariam para expor, sem antes se preocupar em aprender, alerta.
Realmente, Curitiba tem uma quantidade impressionante de exposições. Recebo tantos convites para vernissages que não conseguiria ir a todas. Mas a cidade tem espaços de categoria e confiabilidade que não ficam atrás de muitos europeus e norte-americanos. Na verdade, trabalho bom se vende sozinho, constata.
A arte tornou-se um componente natural da sociedade burguesa. A constatação é do consagrado Carlos Eduardo Zimmermann. Isso é um reflexo positivo, uma vez que as pessoas frequentam círculos mais esclarecidos, têm oportunidades de viajar, visitar museus, conhecer galerias, ir a teatros, etc. Não basta mais ter uma casa e um carro, é preciso saber falar de arte.
Os hábitos estão mudando, não só no circuito das artes plásticas mas também no gastronômico, observa Zimmermann. A cultura foi trocada pela informação, mas conservamos uma consciência tribal, onde nos identificamos e mantemos as afinidade. No meio disso tudo, a arte adquiriu um fator social que reflete a época, e Curitiba oferece locais de muito bom nível para todos os bons artistas, sejam eles novos, maduros ou que já tenham morrido e deixado obras de grande valor.
A galerista Tuca Nissel reconhece que a função de uma galeria de arte não é só vender, mas incentivar o artista. Procuramos manter intercâmbios com galerias de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Privilegiamos os artistas locais expondo-os aqui e organizando mostras em outros estados. Em contrapartida recebemos artistas de fora.
Pioneira e por muitos anos sozinha no mercado de arte, Eugênia Petrius foi proprietária da primeira galeria de arte de Curitiba, a Cocaco. Fundada em 1955 por Ênio Marques, a Cocaco foi famosa por receber e incentivar novos talentos. Estudantes e artistas faziam da galeria ponto de encontro. Trabalhamos muito no sentido da formação de público. Fizemos um trabalho de catequese, mesmo, recorda Eugênia.
Ela conta que no início a galeria não vendia quase nada, mas era muito comentada por expor trabalhos diferentes. O novo sempre choca. E a Cocaco assustava aquela Curitiba de 250 mil habitantes, sem museus de arte e apenas dois salões de arte por ano.
Atualmente o acervo da Cocaco está na casa de Eugênia. Tenho cerca de 400 obras de arte. Tive de fechar a galeria depois que o imóvel foi vendido. Ainda tentamos manter a galeria, mas foi impossível, lamenta.
Entre os artistas plásticos representativos e que Eugênia cita como precursores das artes no Paraná, estão Fernando Velloso, Loio Pérsio, que inaugurou a Cocaco com uma mostra individual, Helena Wong e Isabel Backer, além de Werner Jehring, Domício Pedroso, Érico da Silva, Ida Hannemann de Campos, Eloina Motta, Lina Iara, Cristina Petry e Manoel Furtado.


