O cotidiano tenso de Arequipa circunda o cone imponente do Misti. Ativo e ameaçador, o vulcão possui 5.825 metros de altitude e pode ser visto de todos os pontos de uma cidade fundada em pleno deserto, e que traz as cicatrizes de uma história marcada por erupções, terremotos e destruição.
A Cidade Branca, como é chamada - por ser construída com sillar, uma pedra vulcânica clara - é um centro comercial com 760 mil habitantes dominado pela classe média oriunda da mistura entre espanhóis, indígenas e colonizadores alemães, ingleses e italianos. As características européias estão presentes nas ruas.
Sua história é um balanço de cataclismas. A catedral, por exemplo, começou a ser construída no século 16, mas só foi terminada neste século, após constantes reformas e desabamentos. Além do Misti, de Arequipa ainda se observa mais dois vulcões: o Chachani, dormente, e o Pichu Pichu, extinto. Na região há ainda o Huaynaputina que, mesmo sem ser avistado da cidade, provoca terremotos quando entra em erupção - Em 1600, um cataclisma provocado pelo Huaynaputina destruiu parte da Catedral e do Convento de Santa Catalina.
Foto: Ranulfo PedreiroTemplo dos Jesuítas: pátios cercados por varandas que abrigavam 40 habitações, hoje transformadas em um shoppingA 120 quilômetros do mar, Arequipa é um ponto estratégico entre Cuzco e Lima, além de funcionar como portão de entrada para o vale do Rio Colca, que atravessa o deserto e forma um cânion de cem quilômetros de extensão. Enquanto Lima fica ao nível do mar, Arequipa está a 2.325 metros de altitude, o suficiente para causar mal-estar nos desavisados. A dica é seguir os conselhos dos guias e fazer a aclimatação de três horas.
Adaptação garantida, vale um passeio descontraído pela cidade. Como em Lima, Arequipa também possui uma Plaza de Armas onde se localiza a Catedral e edifícios coloniais que hoje abrigam bares e restaurantes. Não há, na região, grandes monumentos arqueológicos. As civilizações pré-incaicas que viviam ali fizeram um acordo matrimonial, vivendo em paz sob tutela dos Incas, que não precisaram erigir fortificações.
O consumista compulsivo encontrará em Arequipa as melhores confecções de lã de alpaca e vicunha. Nos arredores da cidade há parques ecológicos onde a vicunha vive livremente, enquanto no Vale do Colca a criação de alpacas é comum. As peças de roupa são bem produzidas, mas os preços variam bastante. Ao invés de procurar em um shopping requintado, o ideal é visitar lojas mais populares.
Em Arequipa o turista também não precisa se preocupar com chuvas. Devido à aridez da região, a umidade do solo chega a apenas 25%, e o índice de pluviosidade gira em torno dos 70 milímetros ao ano. A cidade é responsável por 70% da produção nacional de cebola e possui um comércio desenvolvido.
Foto: Ranulfo PedreiroA Cidade Branca, Arequipa, é um centro comercial com 760 mil habitantesAlém das ruínas pré-incaicas, que podem ser observadas principalmente no Vale do Colca, uma das atrações é o Templo dos Jesuítas, que funcionou como uma espécie de escola entre 1621 e 1698. Como na maioria dos locais religiosos no Peru, o altar é construído em cedro, revestido por placas de ouro trabalhado. No interior, há pátios cercados por varandas que abrigavam 40 habitações, hoje transformadas em um shopping - as lojas não interferem na arquitetura do lugar.
Ainda em Arequipa, localiza-se o Mosteiro de Santa Catalina, uma verdadeira cidade fundada em 1578, dedicada ao claustro e devoção religiosa. O mosteiro é um grande conglomerado de construções que reproduzem o cotidiano de freiras e noviças que ali viviam. Os ambientes foram restaurados com peças e móveis originais, e o lugar mantém inclusive os trechos destruídos durante o terremoto de 1600.
Os aventureiros podem optar pela escalada do Misti, uma tradição que começou no período pré-incaico, quando os nativos subiam o vulcão para levar oferendas e aplacar-lhe a ira. O hábito se manteve durante a dominação Inca, a colonização espanhola e sobrevive ainda hoje. O Misti já foi escalado por membros da nobreza de vários países.
Arequipa também é um convite para a gastronomia. Em bons restaurantes - alguns possuem atendimento ruim - pode-se provar pratos como sopa de maiz - milho andino - maiz torrado, pimentão recheado e até mesmo cuy ao forno, animal conhecido no Brasil como porco-da-Índia. O cuy é um prato nobre peruano, e a recusa em apreciá-lo pode ser considerado ofensa. Para acompanhar, um bom copo de pisco sour, aguardente de uva batido com ovo, limão e canela.
Mas as principais atrações de Arequipa estão além de seus limites, deserto adentro, onde a vegetação e o terreno mudam a cada quilômetro formando paisagens surpreendentes. Pelo meio do deserto, segue o Rio Colca, que irriga boa parte da região e afunda na terra desafiando a altitude, esculpindo escarpas de mais de 3 mil metros.Foto: Ranulfo PedreiroArequipa: ponto estratégico entre Cuzco e Lima, portão de entrada para o vale do Rio ColcaRanulfo Pedreiro

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