Uma cidadã devotada ao trabalho
Nitis Jacon há tempos se destaca no cenário artístico-cultural brasileiro e é a única paranaense que integra um restrito grupo de trabalho empenhado no estudo e criação de políticas culturais para o País. Pelo seu desempenho ao longo dos anos, frente ao Festival Internacional de Teatro e outras atividades, ela recebeu, no dia 17 de setembro, o título de Cidadã Honorária de Londrina, em solenidade realizada na Câmara de Vereadores da cidade. Abaixo, reproduzimos trechos de seu discurso na ocasião:
Na véspera do natal de 1957, desembarquei pela primeira vez no aeroporto de Londrina. Chovia. Fiquei deslumbrada com o vermelho do barro que se refletia no pôr-do-sol. Naquele momento, eu já antecipava minha compreensão de que estava sendo adotada por esta terra...
...Aqui passei a desenvolver um trabalho cultural que abrangia toda a região Norte do Paraná, passando por Arapongas, a cidade onde resido e onde tenho tantos e bons amigos. Naquele tempo, a relação que se estabelecia com a cultura era a do hobby ou do mecenato. No entanto, sempre tive a convicção de que a Cultura é matéria essencial, como são a saúde e a educação. Naquele tempo já me considerava uma trabalhadora da cultura e o desempenho do meu trabalho sempre teve um caráter profissional de disciplina e rigor, mesmo quando não remunerado ou malremunerado. Isto é, sempre...
...Em 1971, com a criação da Universidade Estadual de Londrina, passei a desenvolver meu projeto cultural no âmbito universitário. Já vivíamos em pleno regime militar, na vigência do A.I. 5. O Teatro se equilibrava num tênue fio entre dois sistemas repressivos: o do regime polítco e o do modelo que a universidade assumia. A Universidade brasileira endossava a pasteurização do pensamento crítico nacional e, conivente, se calava diante dos desmandos da ditadura. Esse foi um tempo de silêncio em que a metáfora forjava a alternativa possível diante da censura...
...Hoje, desempenhando a função de Vice-Reitora da Universidade Estadual de Londrina, dou-me conta de que os problemas que a universidade nos apresenta vão muito além da simplicidade das nossas boas intenções. São mais profundos que aqueles que trazemos de um passado recente. Concernem muito mais às transformações das relações humanas e sociais, mais que às reivindicações corporativas e aos esquemas políticos, sua solução está na dependência direta da inteligência comprometida com uma proposta ampla que transcenda as fronteiras do nosso sucesso pessoal e do nosso projeto individual ou de grupo.
Apenas a Universidade pode propor-se o sonho da sociedade utópica. Apenas ela poderá superar ao raciocínio estreito da mediocridade e alimentar a chama da justiça, do conhecimento, da honra...
...É em meio a todas essas reflexões que venho receber com grande júbilo e respeito, a outorga que me faz esta ilustre Casa, os ilustres representantes do povo, a do título de Cidadã Honorária de Londrina. Talvez nenhuma outra homenagem que já recebi ou que venha a receber mobilize tantos sentimentos e comprometa tão profundamente a minha responsabilidade...
...A Londrina, faço a renovação do meu amor e da minha permanente presença nas causas humanitárias, educacionais e culturais para o seu desenvolvimento e elevação da qualidade de vida de seu povo.





