São Paulo, 20 (AE) - Em "Gosto de Cereja" era um possível suicida procurando alguém para enterrar seu corpo depois de morto. Em "Vento nos Levará", às 21h40, sexta, no Cinearte) é um homem que se desloca ao Curdistão iraniano para acompanhar um ritual funerário que, óbvio, só poderá ter lugar se alguém morrer. Nas duas obras-primas, Abbas Kiarostami reflete sobre a morte para melhor celebrar o milagre de se estar vivo.
O que mais impressiona, nesse novo filme, que ganhou o prêmio do júri no Festival de Veneza, é o absoluto despojamento no tratamento do tema. Kiarostami acompanha seu hipotético protagonista, um engenheiro, em sua visita ao vilarejo de Siah Dareh. Ele vai conhecendo os habitantes, faz amizade com um garoto, interessa-se por uma anciã que parece em estado terminal
compra leite em uma pequena fazenda. Tudo isso enquanto acompanha uma misteriosa escavação no cemitério local. Parece nada, ou quase nada. Com essa costura do cotidiano, Kiarostami tece um mundo.
Não fica no documental. Como acontecera em "Gosto de Cereja", ele faz com que alguma coisa de ordem metafísica se insinue nesse emaranhado de pequenos fatos. Nesses momentos, atinge o sublime. E essa relação transfigurada, que aparece apenas quando muita água já correu sob a ponte, impregna o filme todo, o que está por vir e o que já passou. Por exemplo, a história toda passa a ter outra significação depois dessa cena magnífica. O engenheiro vai comprar leite e entra num cubículo onde uma vaca é ordenhada por uma mocinha. Enquanto ela faz seu trabalho, o engenheiro vai conversando. Recita e explica um poema. Os versos finais - "o vento nos levará" - dão título e significado ao filme.
A sequência é uma iluminação para o espectador. Isso porque se nota que também o é para o personagem. Seu terno diálogo com a mocinha, na verdade, um quase monólogo, transforma-se num momento de compreensão daquilo que está fazendo, de fato, naquele lugar esquecido do mundo. A serena reflexão sobre a morte, sobre a finitude que dá sentido à vida fazem deste O Vento nos Levará um dos (raros) momentos em que o cinema atinge a condição de obra de arte.

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