Uma causa para cada efeito
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Todas as coisas do mundo estão interligadas. Até o mais ínfimo alfinete possui uma imensa rede de ligações. Do operário com dor de dente que funde o ferro à costureira que confecciona um vestido de noiva relembrando uma antiga paixão da juventude. Nessa situação, talvez o ferro não deverá ser devidamente fundido graças a dor de dente do operário; talvez a costureira criará um belo vestido pensando na felicidade do passado.
Cada componente desta rede de relações está sujeito às infinitas forças do universo. De maneira simplista, trata-se do princípio de causa-efeito. Todo acontecimento, ou consequência, é fruto de uma causa que o precedeu. A tradição popular oral possui uma maneira divertida de tocar no assunto: Cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Está no mato. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? A água apagou. Cadê a água? O boi bebeu. Cadê o boi? Está colhendo trigo. Cadê o trigo? A galinha espalhou. Cadê a galinha? Está botando ovo. Cadê o ovo?...
No livro Todo Cuidado é Pouco!, lançado pela Editora Companhia das Letrinhas, o ilustrador e escritor Roger Mello oferece uma interessante abordagem sobre a rede de relações de causa-efeito. Destinado ao público infantil e infanto-juvenil conta um história sequencial percorrendo elo por elo da corrente. Utilizando um movimento cíclico, caminha da causa para o efeito para depois realizar o mesmo caminho de maneira inversa, do efeito para a causa.
Tudo começa com um jardineiro de pés descalços que vigia uma rosa branca. Seu receio é que a rosa fuja do jardim. Ele está descalço porque o gato escondeu seus sapatos. O gato foi um presente de seu irmão. Casado com Dalva, o irmão havia herdado o gato de um tio. O tio de Dalva morreu de desgosto esperando uma carta de amor. A carta nunca chegou porque o carteiro a perdeu. A perdeu no momento em que achou um anel. Anel este jogado por uma costureira que achava o bigode de seu noivo ridículo. O noivo mantinha o bigode devido a uma promessa da mãe. Mãe que caiu num buraco. Buraco que foi cavado para enterrar uma velho doente. Velho que era cuidado por um macaco amestrado fugido do circo. Fugiu porque o palhaço havia lhe pisado no rabo. Pisou no rabo porque estava correndo assustado. Assustado com o barulho de um globo caindo no chão. Globo que estava na mesa do administrador, presente de sua irritante prima. Irritante porque usava um broche de ouro que a espetava, etc, etc, etc...
No decorrer da narrativa um fato é descoberto como equivocado. Ou seja, um dos efeitos é infundado. Consequentemente, a causa que deu origem a esse efeito também está errada e deve ser revista. Como tudo acontece em cadeia, um fio puxando outro, a história deverá ser corrigida, elo por elo, de trás para frente até o ponto de partida: a rosa branca.
A obra criada por Roger Mello tem uma unidade entre texto e imagem exemplar. Além da beleza dos traços, as ilustrações seguem a mesma estrutura do texto e vice-versa. Não são fragmentações da história, mas a própria história. Em outras palavras, são desenhos narrativos.
Todo Cuidado é Pouco! texto e ilustrações de Roger Mello, Editora Companhia das Letrinhas, 36 páginas, R$ 18,00.





