Mais que sincero, necessário. ‘‘Pérolas do Pagode’’ é uma espécie de cartilha a essa nova geração autodenominada pagodeira, que acredita, como num deus qualquer, que pagode se faz com baladas safadas, tecladinhos melosos e andamentos questionáveis, tudo temperado com um ‘‘oba-oba’’ desvairado. Fosse em épocas anteriores a essa onda de pagode-fashion, ‘‘Pérolas do Pagode’’ poderia soar como mais um autêntico disco de pagode. E dos bons. E só. Mas como atualmente há um bando de analfabetos musicais travestidos de pagodeiros tocando pelas rádios afora, ‘‘Pérolas do Pagode’’ ganha, digamos, um caráter didático. E Beth Carvalho, mesmo com a voz um tanto quanto desgastada, ainda se revela uma excelente professora. A melhor do corpo docente feminino do autêntico samba.
Com categoria inigualável, Beth Carvalho consegue, inclusive, a proeza de imprimir personalidade a canções praticamente saturadas tamanha a execução. É o caso de ‘‘Mel na Boca’’ (David Correa) sucesso na voz de Almir Guineto. Por outro lado, destila cadência mas não consegue reproduzir o mesmo humor que Zeca Pagodinho deu na gravação original de ‘‘Não Sou Mais disso’’ (Zeca Pagodinho-Jorge Aragão). O ufanismo exagerado por pouco não manda morro abaixo ‘‘Amor Varonil’’ (Marquinhos PQD-Sérgio Procópio), com direito a breve citação instrumental do Hino Nacional.
São pequenos e perdoáveis deslizes já que ‘‘Pérolas do Pagode’’ reserva muitos pontos altos. A começar por Beth aglutinando em pout-pourri três de seus sucessos - ‘‘Olho por Olho’’ (Zé do Maranhão-Daniel Santos, de 77), ‘‘Senhora Rezadeira’’ (Dida-Dedé da Portelade, de 79) e ‘‘Ô, Isaura’’ (Rubens da Mangueira, de 78). Das inéditas, ‘‘O Mar’’ (Arlindo Cruz-Marquinhos PQD) é uma das faixas mais deliciosas assim como ‘‘Seu Bernardo Sapateiro’’ (Monarco-Ratinho).
Seria uma injustiça não citar a preciosa e precisa percussão que dá estofo ao disco sem maiores firulas. Aliada à harmonia dos instrumentos de cordas, faz com que Beth fique à vontade para brincar - mesmo que levemente - com o andamento em determinadas faixas. Isso acontece, por exemplo, no pout-pourri composto por ‘‘Segure Tudo’’ (Martinho da Vila), ‘‘A Flor e o Samba’’ (Candeia) e ‘‘No Pagode do Vavᒒ (Paulinho da Viola) que traz o sempre inspirado Zeca Pagodinho cantando ao lado da ‘‘madrinha’’.
Agora, se é para eriçar pêlos, é bom dar uma ou duas ou três ou várias ouvidas em ‘‘O Show Tem que Continuar’’ (Sombrinha-Arlindo Cruz-Luiz Carlos da Vila), um clássico do grupo Fundo de Quintal. Com direito a um arranjo pomposo (com direito a tímpanos), Beth Carvalho põe para fora toda sua porção intérprete que até então se resguardara e imprime dramaturgia a cada frase da canção. ‘‘Pérolas do Pagode’’, em suma, é uma prova irrefutável de que Beth Carvalho, mais que uma purista, é sobretudo uma diva. E uma diva raramente decepciona. (A.M.J.)

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