Uma carta sem glitter
No último domingo publiquei uma crônica em que falo da minha implicância com os pps. Não é de hoje que considero estas mensagens eletrônicas, que circulam em massa, uma tremenda falta de imaginação, um tiro na criatividade. Mas muitas pessoas adoram enviar os pps, instituindo essa forma de comunicação como algo moderno e afetuoso.
Pois é, foi só publicar a crônica e recebi e-mails de pessoas que concordam ou discordam dos meus pontos de vista. Acho que desta vez acertei na mosca. O tal pps, mania de 8 entre 10 internautas, corre por aí mais rápido do que o vírus da gripe A, e seus apreciadores também.
Entre os e-mails que recebi, alguns me ensinam a apertar o esc para me livrar do pps. (Conhecia o truque, mas se tivesse apertado a tecla, como teria inspiração para escrever aquela crônica?)
Mário, um leitor, não só discordou como tentou me convencer que pps é a coisa mais linda do mundo e me enviou uma mensagem eletrônica sobre o rio Bonito. Outro leitor, o Moacir, também me enviou um poema de Rimbaud. Só Rimbaud, sem pirotecnias, sem efeitos especiais, sem glitter. E fiz o que mais gosto, naveguei nas palavras.
Mas devo dizer que o Mário, depois que lhe respondi reiterando minha bronca com o pps, enviou outro e-mail com palavras generosas e até uma foto da família. E eu disse: Tá vendo Mário, é por isso que brigo pelas mensagens pessoais, os e-mails de próprio punho, é para não perdermos as... humanidades.
Ele entendeu, gente fina. É por leitores assim que o ofício da escrita ganha sentido. Não faz mal que concordem ou não com a gente. Mas expressar o que sentem quando nos leem é dar à palavra a amplitude de um código aberto, de uma mensagem aberta.
Só quando somos muito jovens e narcísicos, não suportamos as críticas, querendo que concordem com cada vírgula do que escrevemos. Quando comecei a fazer reportagens, ficava de olho em cada movimento do editor enquanto ele lia meu texto. Tive bons editores - os melhores da safra de 80 -, mas cada palavra suprimida era um tiro no peito, até que aprendi a relaxar e compreendi que, às vezes, um corte cai bem num texto.
Com os cortes dos leitores acontece a mesma coisa. Quando divulgamos ideias e nos dedicamos a temas aparentemente banais - mas nevrálgicos como os pps - podemos esperar todo tipo de reação. Porque trata-se de uma mania, um hábito, um prazer para muitas pessoas e um desprazer para outras. Então, viva a diferença! Nunca quis um mundo com ideias uniformes.
Refletindo sobre minha implicância com os pps, esta ojeriza por mensagens eletrônicas, percebi que existe um temor de que as tecnologias sufoquem as... humanidades. Que a expressão individual seja sufocada pelas mensagens em massa que um passa para o outro, às vezes eu disse às vezes - sem coração.
Mas prezo a tecnologia, o pc é hoje a extensão do meu pensamento, assim como um dia foi a máquina de escrever. Mas, de vez em quando, ainda sinto a vontade nostálgica de enviar cartas manuscritas porque sinto imensa aflição de perdermos os envelopes, os selos, os cheiros da correspondência.
Para mim, o mundo bonito ainda é aquele impregnado de humanidades. Então, mantenho algumas utopias - acho que precisamos delas - e brigo pela expressão da particularidade humana em cada gesto, em cada texto, em cada movimento.
Sei que atrás de um pps, houve um criador que escolheu textos, cores, imagens, texturas. Mas não podemos apenas reproduzir emoções, devemos senti-las e dar a elas nosso próprio recorte.
Assim, hoje escrevo uma carta aos leitores. Agradecendo a bronca inicial do Mário e a generosidade que ele revelou na sequência, explicando seus pontos de vista, respeitando os meus e me enviando uma foto da família. Nos conhecemos como duas pessoas com pensamentos diferentes que se encontram na necessidade da expressão.
E agradeço imensamente ao Moacir, que me enviou um poema de Rimbaud sem glitter.





