Uma carreira que dá Ibope
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 1997
Eduardo Minc e Rodrigo Ferreira TV Pres 
Arquivo FolhaMiguel Falabella: segredo pode estar na afinaçãoEnquanto muitos médicos, professores e engenheiros são obrigados a conviver com o desemprego, uma profissão aparentemente supérflua vem crescendo na contramão da retração do mercado de trabalho do real: a de teledramaturgos. A demanda do mercado hoje é pelo menos seis vezes maior do que em 1992. Na época, apenas 15 dramaturgos trabalhavam na tevê brasileira, contra os atuais 90 autores que hoje trabalham escrevendo novelas e minisséries.
O número de tramas produzidas atualmente exige um trabalho braçal infinitamente maior, garante Manoel Carlos, autor de várias novelas, sendo as mais recentes Felicidade e Uma História de Amor.
É verdade que as novelas mudaram. Nos anos 60 e 70, uma novela durava no máximo meia hora e tinha entre oito e 10 cenas. Hoje são de 40 a 50 minutos com até 35 cenas. Segundo Manoel, foi ele o primeiro parceiro de telenovelas, ao escrever Água Viva juntamente com Gilberto Braga, em 1980.
Parcerias, com o tempo, foram se tornando cada vez mais inevitáveis. Até mesmo para os mais experientes, como Dias Gomes, viúvo da autora Janete Clair. Ambos se tornaram reconhecidos por imprimirem um estilo próprio, estritamente autoral em relação às suas obras. Mas a dificuldade em delegar tarefas também tem seu preço.
Arquivo FolhaAna Maria Moretzsohn: aluna nota 10
O esforço era tamanho que muitos colegas morreram pelo estresse, afirma Dias, citando Jorge Andrade e Cassiano Gabus Mendes, que morreram por problemas cardíacos, e Janete Clair, que não resistiu a um câncer.
Exatamente para não engrossar a lista de óbitos, o escritor Walter George Durst, que atualmente se dedica a fazer a adaptação para o SBT de Os Ossos do Barão, decidiu formar equipes mais ou menos fixas para a elaboração dos roteiros. Ainda que isso possa influenciar na unidade final do trabalho. A individualização deixou de ser completa com a divisão do trabalho, admite Walter. Para o autor, os últimos trabalhos essencialmente autorais teriam sido escritos até 1980.
Foi exatamente nos anos 80 que o roteirista Doc Comparato começou a ministrar cursos de formação de autores, num dos quais se formou Ana Maria Moretzsohn, entre outros nomes. Para Doc, o próprio conceito da palavra autoria vem sendo substituído. O que se vê hoje é uma trindade de criação entre o produtor, o autor e o diretor, enumera Doc, reconhecido como um profissional bem-sucedido.
Apesar de ser um mercado em crescimento, ainda há poucos profissionais no ramo e os autores consagrados têm um situação privilegiada. Manoel Carlos, por exemplo, tem contrato com a Globo até 2001, com uma renda mensal de R$ 10 mil, mesmo quando não escreve absolutamente nada.
E este valor ainda é acrescido de um percentual de merchandising e vendas ao exterior, quando a minha novela está no ar, explica um tranquilo Manoel, que deve escrever sua próxima novela apenas no início de 1998.
Arquivo FolhaDias Gomes: estilo próprio, estritamente autoral
Manoel Carlos divide um seleto patamar onde cabem nomes como Dias Gomes e Sílvio de Abreu, todos considerados tops. Correndo atrás do mesmo status estão autores da nova geração. Um deles é Ronaldo Santos, colaborar de Carlos Lombardi em Quatro por Quatro e hoje supervisor de textos da novela da Angélica, Caça Talentos.
À frente de uma equipe de sete pessoas, Ronaldo diz que tem conseguido administrar bem a fogueira de vaidades que pode surgir em um trabalho em grupo. Cada equipe se afina de maneira distinta, diz, categórico, Ronaldo.
A afinação parece ser o ponto forte do time formado por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, autores de Salsa e Merengue. Maria Carmem já havia trabalhado antes com Antônio Calmon, em Olho no Olho , além de ter escrito com Falabella várias peças de teatro.
Mesmo plenamente satisfeita com a profissão, Maria não perde a capacidade de imaginar finais felizes. É claro que preferia ser rainha em Buckingham, loura e de olhos azuis, delira a autora de Salsa e Merengue.
Escola de autor Posso até me gabar um pouco deste aumento expressivo do número de autores, afirma, sem modéstia, o roteirista Doc Comparato. No início da década de 80 ele chegou a ministrar cursos na Globo e na Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio, para alguns curiosos que desejavam se transformar em autores de teledramaturgia. Numa de suas turmas iniciais se formaram Ricardo Linhares, Márcia Prates e Ana Maria Moretzsohn, entre outros nomes.
Autora da novela Perdidos de Amor, da Band, Ana Maria é hoje uma experiente profissional com mais de nove novelas no currículo. A melhor escola sempre será a de poder trabalhar junto ao autor, garante Ana, que escalou na sua equipe três roteiristas e uma pesquisadora.
Segundo Doc Comparato, que lançou em 1995 o livro Da Criação ao Roteiro, a profissão atualmente se ressente de um número maior de cursos. Há uma demanda no mercado e tem muita gente interessada em aprender a escrever bem, aponta Doc, recém-chegado de uma temporada de sete anos na Europa.
E é justamente para suprir tais necessidades dos aprendizes que o autor Walter George Durst deseja ministrar em breve uma oficina no SBT. Quero fazer um curso completo, com ensinamentos que vão da autoria de uma história até a iluminação perfeita de uma novela, conclui Walter.
Rendição veterana Em função da própria dinâmica que tomou conta das novelas, raros são os autores que podem se dar ao luxo de continuar a escrever os seus roteiros sem o auxílio de uma equipe. Isso inclui até mesmo os escritores mais experientes, como é o caso de Dias Gomes. Acho que não tenho é mais saco para escrever sozinho, admite Dias. Aos 70 anos de idade, o autor está escrevendo a minissérie Dona Flor, auxiliado por Moacir Moraes e Ferreira Goulart.
Dois anos mais novo, Walter George Durst foi mais perspicaz e passou a se dedicar às minisséries assim que percebeu que a sua saúde poderia ficar abalada. Me precavi para não ter de colocar nenhuma ponte de safena, brinca Walter. O escritor acabou por desenvolver um método bem particular para escalar seus colaboradores. Quando fazia palestras convocava os mais interessados, revela Walter, atualmente trabalhando com Mario Teixeira, Tuca Rachid e Marcos Lazarini.


