Curitiba – O violinista Roney Marczak pode ser considerado como uma das estrelas ascendentes do selo Paulinas/Comep, de São Paulo. Depois de lançar ‘‘Descobertas’’, CD de estréia do duo Marczak-Ruvolo – com o pianista Christian Ruvolo –, dois novos títulos foram colocados no mercado em curtíssimo prazo: ‘‘Músicas que Falam ao Coração’’ e ‘‘Descobertas II’’. Este último transformou-se em poucas semanas num dos mais vendidos da Paulinas/Comep.
Para essa performance valeu o empenho da gravadora em escalar o músico na programação de emissoras de TV e rádio de São Paulo. Porém, a performance de Roney no programa do Ratinho, no SBT, motivou uma procura ainda maior do público pelo CD. A participação do violinista londrinense se deu em novembro, mas só foi ao ar no final de dezembro, com reprise em janeiro. Marczak tocou ‘‘Aquarela do Brasil’’, de Ari Barroso. No meio da música o cantor Agnaldo Rayol entrou improvisando. ‘‘Não tínhamos ensaiado’’, diria Roney mais tarde, já de volta a Berna (Suíça), onde mora.
Sem dúvida a popularidade do cantor contribuiu para chamar a atenção dos espectadores. Roney e Agnaldo Rayol se conheceram durante a missa do padre Marcelo Rossi, transmitida pela TV Globo. A produção do programa convidou-os para interpretarem ‘‘Ave Maria’’, de Gounod, que foi considerado o melhor momento dessa manhã. Fascinado pela técnica e sensibilidade do instrumentista Rayol fez questão de levá-lo ao Ratinho.
O repertório de ‘‘Descobertas II’’ feito com preciosidades que vão de Tom Jobim e Noel Rosa a Pixinguinha e Chico Buarque, novamente abre espaço para Camargo Guarnieri. Do compositor paulista o duo selecionou as inéditas ‘‘Canto nº 1’’ e ‘‘Encantamento’’. Também inéditas são as gravações de ‘‘Seresta’’ e ‘‘Dança Brasileira’’, de Carlos de Almeida, carioca que passou a vida como um desconhecido pelos conterrâneos, apesar de ter-se dedicado unicamente à música. Morreu em 1990, aos 84 anos, no Rio, em plena atividade como professor do Conservatório Brasileiro de Música.
Nesta entrevista concedida à Folha2 Roney Marczak fala sobre seu mais novo lançamento, que antes de chegar ao público passou pelo crivo de dez importantes músicos europeus. Entre eles o professor Igor Ozim, que dá aulas para ensino avançado de violino. Segundo o artista, o mestre é ‘‘muito crítico’’ mas, depois de ouvir ‘‘Descobertas II’’ deu seu aval pela qualidade técnica e musical. O CD é encontrado somente nas livrarias Paulinas, mas os constantes pedidos do público deverá alterar esta norma. Comenta-se que a empresa quer ammpliar a distribuição em todas as lojas do ramo.
Em relação ao primeiro volume este ‘‘Descobertas II’’ apresenta uma evolução ou mantém continuidade entre as duas obras?
Eu diria que tem uma evolução bem notória. Quem ouvir o CD vai sentir que ele está melhor elaborado. Acho isso natural e depois de vários concertos que fizemos entre um volume e outro, nossa união musical – minha e do Christian – se tornou mais próxima. O Christian, embora não seja brasileiro, conseguiu se aprofundar nos conhecimentos harmônicos, criando acordes mais próximos ao estilo brasileiro. O pout-porri com os choros de Pixinguinha ficou primoroso. O mesmo se deu com ‘‘A Banda’’, de Chico Buarque, ‘‘Águas de Março’’, de Tom Jobim.
É correto pensar que, vindo do clássico para o popular, você teria no primeiro volume de ‘‘Descobertas’’ uma espécie de introdução a este gênero? Existe agora maior amadurecimento?
Sem dúvida, inclusive porque passamos os últimos anos executando esses repertórios. Na verdade os CDs só são gravados após a realização de turnês que possibilitam maior contato com as obras. Estes discos são resultado de uns 20, 25 concertos. Quer dizer as obras já estão totalmente amadurecidas na alma de nós dois. Se fosse para comparar os dois CDs diria que o segundo está mais harmônico com relação ao repertório e seu conteúdo.
Houve também mudanças na escolha dos compositores...
Realmente, a cada lançamento quero trabalhar com novos compositores. O único que repetimos e fazemos questão de incluir sempre é Tom Jobim. Desta vez estamos trazendo Noel Rosa, Chico Buarque e Pixinguinha. Com relação às obras acho que estamos mais próximos do que o brasileiro aprecia.
Como é que vocês preparam o repertório?
A escolha das músicas é um processo delicado. Eu faço a pesquisa, vou atrás de material, de contatos. Digamos que para um concerto eu precise de umas dez, doze obras. Inicialmente separo uns 30 títulos de uma lista de 100, 120 títulos disponíveis. Em conjunto com Christian Ruvolo chegamos ao número exato com que vamos trabalhar. É uma fase de muita discussão e análises porque não dá para a gente simplesmente ir misturando tudo que encontra, só porque fazem parte da nossa cultura musical. Precisamos de obras de qualidade e também encontrar aquelas que melhor se encaixem na sequência. Aí é que está a alma do nosso trabalho. Essa parte fica comigo: a ordem de apresentação das músicas no CD. É essencial cuidar da seleção para que o ouvinte ouça da primeira à última faixa com a mesma atenção.
Então esse não é um processo aleatório. Qual a intenção na formação desse repertório?
Queremos oferecer ao nosso consumidor algo mais do que um disco de música brasileira com transcrição para violino e piano. Para isso fazemos um estudo não só harmônico mas histórico, com datas de nascimento dos compositores, seus estilos, as épocas em que viveram. Quem comprar o CD estará adquirindo uma espécie de passaporte para breve viagem na história da música do Brasil, incluindo desde sucessos do início do século passado, até nossos dias.
‘‘Descobertas II’’ tem um traço que o caracteriza?
É marcante o clima mais sereno, de interiorização. Aqui tem ‘‘Luiza’’, do Tom Jobim, ‘‘Feitio de Oração’’, do Noel Rosa, o ‘‘Canto nº 1’’ e a própria ‘‘Sonata nº 5’’, do Guarnieri, escolhida pela viúva do compositor como a mais bela que ela conhece dele. Tem Chico Buarque com ‘‘Atrás da Porta’’, que é muito profunda. Modéstia à parte nossa interpretação ficou muito bonita, com uma dramaticidade na dose certa. Nesta faixa nos baseamos muito em Elis Regina e acho que alcançamos um bom resultado. ‘‘Modinha’’, idem.
Tende a ser um disco triste?
‘‘Descobertas II’’ não é um CD triste: colocamos ‘‘Águas de Março’’, ‘‘Encantamento’’, que tem uma variação sertaneja muito linda; colocamos a lírica e brejeira ‘‘A Banda’’ e os três chorinhos de Pixinguinha que é para levantar o astral de quem quiser (‘‘Carinhoso’’, ‘‘Lamentos’’, ‘‘A Vida é um Buraco’’). É um disco leve e que deve agradar.
Antes de ser lançado, onde ele foi ouvido?
Apresentamos na Alemanha, Suíça e Itália que são os três países onde trabalhamos, e também em Oxford, na Inglaterra. Foi durante um encontro de diretores de grandes firmas vindos de todo o mundo. Eram 50 pessoas. Como estávamos com os CDs em mãos levamos 50 achando que sobrariam alguns, porque ninguém ali nos conhecia. Acabamos vendendo todos e tivemos que remeter mais 100 pelo correio.
Quer dizer, no exterior a valorização à música brasileira é maior que no Brasil?
Uma das coisas mais lindas que eu e o Chistian temos vivenciado é a reação do público em relação a esse repertório. Como sempre digo os europeus se preparam muito antes de ir a um concerto, alguns vão até com partitura na mão para se ver como eles levam a coisa a sério. No nosso caso, como todas as partituras são inéditas, sem nenhuma gravação em nível mundial, eles vão super interessados em saber, até porque é uma coisa nova. À pergunta que eles sempre fazem – onde estão os nossos compositores da atualidade? – em parte respondemos com nossos concertos. Os aplausos são as coisas mais incríveis: as pessoas aplaudem rindo, sorrindo, com uma espontaneidade que a gente vê no brilho dos olhos de quem realmente gostou de algo que nunca ouviu.
Como foram as vendas do primeiro ‘‘Descobertas’’ e quais as expectativas deste segundo?
‘‘Descobertas I’’ continua vendendo muito bem. Parece-me que mais de 50 mil CDs foram vendidos. ‘‘Músicas que Falam ao Coração’’ também teve aceitação muito boa, apesar do lançamento ter ocorrido sem nenhum tipo de divulgação. Voltei ao Brasil no final do ano para relançá-lo, digamos assim.
E o que você espera deste Descobertas II?
O Descobertas 2 está sendo nosso grande trabalho. Antes de lançar este CD, entreguei-o a dez músicos muito conhecidos na Europa, entre eles meu professor Igor Ozim, que é muito crítico, muito sensato nas palavras e nas críticas que faz. Ele achou muito bom, de qualidade excelente não só técnica como musicalmente, e os musicólogos a quem entreguei também ficaram fascinados pela mistura do popular com o clássico. Acredito que é um disco que terá um retorno muito bom. Aliás, já está tendo.

mockup