UMA CARREIRA DE PAPÉIS MARCANTES
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de agosto de 2000
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Entre as criações memoráveis de Alec Guinnes no cinema estão as máscaras que usou na comédia O Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick, um marco da comédia inglesa dos anos 50. O humor negro do diretor não seria tão eficiente sem as participações de Guinness e Peter Sellers, à frente de um elenco em que até o menor coadjuvante era perfeito. Mas a grande associção no cinema foi mesmo com o mestre David Lean, com quem ele fez uma série de filmes. Grandes Esperanças, Oliver Twist, os épicos intimistas da grande fase - A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia, o próprio Doutor Jivago. Lean seguiu fiel a Guinness até seu último filme, Passagem para a Índia. Para o grande cineasta, Guinness foi inglês, árabe, russo, indiano.
Loucura - O Oscar veio pelo papel como o arrogante coronel inglês que dedica o melhor de seu esforço à construção de uma ponte para o inimigo, convencido de que, ao colaborar com o comandante japonês Sessue Hayakawa, estará confirmando a supremacia inglesa. No fim, ele tenta impedir a destruição da ponte do rio Kwai e a reflexão do cineasta é que tudo aquilo é uma loucura - a guerra, o fanatismo do comandante japonês, a auto-suficiência do inglês. A Academia de Hollywood rendeu-se e A Ponte do Rio Kwai foi coberto de Oscars, entre eles os de melhor filme, diretor e ator. Contribuíram para isso as cenas de Guinness assobiando a marcha militar, que virou marca registrada do filme, as imagens da solitária - que terminaram servindo de modelo, anos depois, para o personagem de Steve McQueen em Fugindo do Inferno, de John Sturges.
Guinness, colocado nas nuvens por A Ponte do Rio Kwai, foi duramente criticado na associação imediatamente seguinte com Lean. O príncipe Faissal de Lawrence da Arábia foi considerado artificioso pela crítica. Era artificioso mesmo - aquela maneira de franzir a sobrancelha, a dicção carregadamente british quando ele dizia a Lawrence e Ali, os personagens de Peter OToole e Omar Sharif - Go my children. Mas sem esse maneirismo Lean não conseguiria construir sua idéia de Faissal e o papel que ele desempenha no jogo de interesses geopolíticos e estratégicos no Oriente Médio. O filme é maravilhoso. Maravilhosos são Peter OToole, Omar Sharif e Alec Guinness.
O último papel para Lean, o indiano de Passagem para a Índia, é simétrico em relação à dama inglesa interpretada por Peggy Ashcroft. No olhar dela, Lean, crítico implacável da grandeza do império britânico, expressa a exasperação do colonizador diante do colonizado. Essas transparecem no dr. Azis de Victor Banerjee, mas também, um pouco, no indiano polido, de formação inglesa, que Guinness interpreta. E entre as máscaras que usou não pode ser esquecida do rei Charles I de Cromwell mesmo que o épico de Ken Hughes com Richard Harris seja inferior a qualquer das incursões de David Lean na grande história.
Vale ler sua autobiografia, editada no Brasil pela Francisco Alves, há dez anos. Há reflexões interessantes sobre o ofício do ator, que Guinness definia como um ser incompleto. Num trecho do livro ele diz que o ator não passa de uma colcha de retalhos, que dificilmente chega a compor um homem integral. Um ator é o intérprete das palavras de outros homens, frequentemente uma alma que deseja se revelar ao mundo, mas não ousa fazê-lo; um artífice, um saco de maneirismos, um saco de vaidades, um observador frio da humanidade...
Místico - Algumas das passagens mais interessantes de Há Males Que Vêm para Bem discutem a religião, pois Guinness foi um místico que, decepcionado com a igreja anglicana, procurou se fortalecer no marxismo, no hinduísmo (seguindo um guru), para finalmente encontrar-se na igreja católica, à qual se converteu. Usava como máxima uma frase de Teilhard de Chardin - Nossa parte incomunicável é a pastagem de Deus. Gostava de contar como, antes de adotar a paz do cristianismo, viveu momentos conturbados, próximos do delírio, em busca do que acreditar. Admitiu certa vez que tinha visões. Conta uma delas. Numa de suas viagens aos Estados Unidos para filmar As
Aventuras do Padre Brown, foi jantar num restaurante de Los Angeles com a roteirista Thelma Moss. Lá se encontrou com James Dean, que lhe pareceu uma figura adorável. A recíproca foi verdadeira e ambos conversaram animadamente. Na saída, Dean fez questão de mostrar a Guinness sua nova aquisição - o fatídico Porsche envenenado com que o lendário astro de Vidas Amargas
Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade encontraria a morte a 300 km por hora. Guinness olhou para o carro, para Dean e teve a visão dele morto. Pediu-lhe, por favor que desistisse daquele carro. Dean achou graça. Não estava disposto a separar-se da máquina que chamava de minha garota. Eram 10 da noite de uma sexta-feira de setembro de 1955. Na sexta-feira seguinte, Dean morreu esmagado pelas ferramentas do carro destroçado.


