Foram quase seis meses no ar até Thiago Lacerda se sentir completamente à vontade na pele do fotógrafo Bruno, seu personagem em ''Viver a Vida''. Após dois anos sem fazer uma novela, ele assume que levou muito tempo para se adaptar ao seu personagem e ao ritmo da atual trama das oito de Manoel Carlos. Mas a demora em incorporar o sedutor e cosmopolita fotógrafo não diminui seu encanto pelo papel. ''O Bruno é um personagem solar, bem resolvido e moderno. O mais interessante é que ele é humano'', sintetiza.
Após o final de ''Eterna Magia'', em 2007, você anunciou que ficaria um tempo longe da tevê para descansar e refletir sobre sua carreira. O que o fez voltar?
Posso dizer que voltei diferente. Pude pensar no que quero fazer pelos próximos anos. Gosto de personagens que tenham algo a dizer. Acho interessante romper algumas fórmulas e paradigmas. Não quero um papel só para ocupar o tempo. O que me interessa na tevê é discutir alguns valores enraizados. O Bruno, por exemplo, está aí para mostrar que existe uma outra forma de viver, sem se prender a certos padrões.
Você já viveu muitos heróis nesses 13 anos de carreira. O Bruno é um contraponto?
O Bruno é um personagem alegre, luminoso, um cara muito bacana. O que eu queria trazer para ele era um pouco de sujeira. Queria dar um rancor, mágoa profunda ou algo muito feio. Um conflito interno que humanizasse um pouco o personagem. Na tevê, os heróis costumam ser muito perfeitos. Acho interessante surpreender e enveredar por um caminho não tão limpo.
Por que essa preocupação?
Porque não existe ninguém 100% bom ou mau. Um cara gente boa o tempo inteiro é muito legal para uma novela, mas não é humano. Se a gente entra em um folhetim, o herói é reto, tem uma mulher só e pronto. Mas a gente sabe que não é assim. Um jovem do mundo, sem amarras nem compromissos, nem perde tempo quando vê duas gatas. Não tem esse papo de se apaixonar. Isso é possível. Eu já fui adolescente e tive várias namoradas ao mesmo tempo. Não considero o Bruno apenas um personagem, ele é uma pessoa comum, que a gente encontra a toda hora.
Você empresta muitas características suas ao personagem?
Tem muito de mim nele, sim. A diferença entre nós é que eu tive de fazer escolhas muito jovem. Aos 20 anos, eu já tinha um vínculo forte com o trabalho e levava tudo muito a sério. Embarquei em uma onda de responsabilidade bem cedo.
Há 10 anos, sua carreira deslanchou como o protagonista Matteo, de ''Terra Nostra''. Desse tempo para cá, como você avalia a sua carreira?
Acho que melhorei muito. Estou muito mais crítico e as coisas têm outro peso. A gente tem mais responsabilidade quando o tempo passa. Sou muito feliz com a passagem do tempo. Gosto de olhar para trás e ver coisas legais. Tenho uma carreira assinalada com segurança. Consegui costurar bem esses 13 anos de tevê com as minhas peças e os trabalhos que fiz no cinema. Sou muito feliz com esse casamento de trabalho que consegui fazer.
Sente falta de fazer algum tipo de personagem?
Muitos. O que mais me interessa em qualquer trabalho é o processo de investigação. Seja em um personagem moderno como o Bruno, de ''Viver a Vida'', ou uma figura histórica como o Giuseppe Garibaldi, de ''A Casa das Sete Mulheres''. Sempre me pergunto como vou contar a história, se vou conseguir fazer bem, o que preciso para chegar até o personagem. Gosto muito de pesquisar e a preparação é a parte que eu mais gosto. Talvez mais até do que interpretar propriamente. Sinto falta, por exemplo, de fazer algum personagem de Shakespeare. Falar da excelência das peças dele é redundante. Shakespeare é um mergulho infinito e investigar isso é muito legal.

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