UMA CAPITAL NO EMBALO ELETRÔNICO
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de abril de 2001
Simone Mattos De Curitiba 
House, tecno, trance e drumnbass não são mais palavras estranhas para quem frequenta a noite curitibana. Posicionada hoje como a segunda mais importante cidade brasileira em música eletrônica, perdendo apenas para São Paulo, a cidade sediará ainda neste mês a segunda edição do Skol Beats, que trará consagrados DJs nacionais e internacionais para uma festa com dez horas consecutivas de duração.
Os notívagos que têm hoje mais de 25 anos de idade, entretanto, sabem que a realidade nem sempre foi esta. Quando inauguramos o Legends, em 1993, não havia em Curitiba mais do que 600 adeptos. Hoje, há pelo menos 20 mil pessoas que saem para dançar e ouvir especificamente este som, comenta o DJ, proprietário do D-Vynil e do extinto Legends, Igor Mattar.
Após morar vários anos na Inglaterra, ele chegou a Curitiba no início dos anos 90. Na época, a cena eletrônica local se resumia a restritos guetos gays. A criação do Legends funcionou como divisor de águas na entrada definitiva da música eletrônica na cidade. Numa sexta-feira, em julho de 1994, o movimento explodiu, lembra. Até hoje não consegui explicar o que aconteceu.
Hoje, recém-chegado da Winter Music Conference (WMC), evento que acontece anualmente em Miami (EUA) reunindo aproximadamente oito mil DJs e produtores musicais de todo o mundo, Igor fala com insegurança sobre o futuro do movimento. Isto foi muito discutido em Miami e existem duas hipóteses, adianta.
Por um lado, há toda uma geração de pessoas que hoje têm 18 ou 20 anos de idade e que cresceram ouvindo som eletrônico. Se depender delas, o movimento continuará firme por muito e muitos anos, aposta Igor. Mas a preocupação mundial dos DJs e profissionais da área é sobre o esgotamento do mercado. Tudo o que podia ser criado, já foi feito. Não há mais novidades, só reciclagem, afirma.
Previsões à parte, a realidade presente mostra Curitiba em segundo lugar no ranking nacional, seguida por Rio de Janeiro e Belo Horizonte (MG). Hoje, a música eletrônica aqui já é maioria, é pop, é mainstream, exclama Igor. Há muito tempo não é mais música de uma minoria.
O fato de Curitiba estar novamente incluída no roteiro do Skol Beats mostra um reconhecimento nacional da cidade como pólo difusor do movimento, reconhece Igor.
Menos otimista, o DJ curitibano Dudu Schwab, com dez anos de pistas e 500 festas no comando do som (a serem completadas exatamente na noite do Skol Beats), acha que o crescimento da cena curitibana foi mais quantitativa do que qualitativa. Hoje há 500 DJs novos na cidade, mas são pessoas sem referencial, que não sabem o que aconteceu antes ou como foi o início do movimento. Segundo ele, os bons DJs curitibanos podem ser contados nos dedos de uma mão.
Outra crítica sua é em relação ao público. No início dos anos 90, havia menos de mil adeptos da música eletrônica em Curitiba, mas estas pessoas apreciavam a técnica e a qualidade do som feitos pelos DJs, lembra. Hoje isto não é mais reconhecido pelo grande público.
Posicionado em 9º lugar no ranking mundial de DJs, publicada no ano passado pela DJ List, numa competição em que concorreu com outros 17 mil nomes, Dudu não poupa severas críticas ao mercado curitibano. A nossa remuneração, por exemplo, está defasada se comparada a média nacional, reclama.
Segundo ele, os cachês dos melhores DJs nacionais chegam a R$ 2 mil por festa, mas em Curitiba dificilmente passam de R$ 1 mil. Alguns ganham R$ 500,00 para tocar durante o mês inteiro em determinada casa noturna, comenta.
O mais aclamado DJ curitibano nacionalmente, Leozinho, confirma que basta sair de Curitiba para aumentar o valor do cachê. Hoje ganho melhor e sou mais reconhecido, diz. Há um ano ele venceu o duelo nacional de DJs em Maresias (litoral Norte de SP) e recentemente recebeu o título de DJ Revelação Noite Ilustrada 2000, o que o levou a estar hoje em permanente ponte aérea, trabalhando simultaneamente em Curitiba, como DJ residente da Rave, e São Paulo.
Acho que atualmente o mercado da música eletrônica em Curitiba está atravessando uma turbulência, afirma. Atento a movimentação do público, ele também comenta que a maioria das pessoas que sai à noite têm a intenção de azarar e não propriamente de ouvir a música dos DJs e se divertir com ela. Com certeza, em São Paulo, o público dá mais valor ao som do que aqui, finaliza.


